Fiz uma piada sobre ele para a minha mãe e ele me empurrou no estacionamento do supermercado. Pediu desculpas quando eu reclamei.
Apontei um erro no trabalho que ele estava fazendo com um tom zombeteiro, tomei um dedo na cara. Sem nenhuma necessidade de ser enquadrada, tive que levantar a voz para dizer que aquilo não era certo. Ele aquietou.
Trouxe o remédio que ele não queria e ele jogou o cobertor longe. Tomou sem me olhar e virou para dormir. Falou um obrigado bem seco.
Por duas vezes eu me machuquei, uma vez a mão e a outra as costas. Precisei de algumas semanas para sarar, toda vez reclamando em voz alta para não deixar a dor passar. Ele disse que ficou muito triste por ter feito isso comigo.
Muito estranho estar com alguém desse jeito. Aos poucos, quando acho que estou tomando liberdade, eu me envolvo com mais profundidade. Passo a ficar presente em momentos diferentes. Ele não parece estar gostando e responde com grosseria. Eu não consigo pensar em outra coisa para chamar isso além de grosseria.
Muito ruim que seja essa a resposta. Se essa foi a única resposta que ele teve e é assim que sabe falar comigo, tudo bem. Se não é pessoal, é apenas parte da personalidade dele, eu entendo. Mas isso não me atrai. Não fiz nada para isso, não mereço, não gosto. E sabe o que eu faço quando eu não gosto?
terça-feira, dezembro 31, 2019
sexta-feira, novembro 29, 2019
Subnutrida
Come assim, assado ou cru. Na verdade não come cru, não gosta. Come bem. Quase de tudo, tem seus gostos e seus favoritos, mas também tem aquilo de que não gosta. Come rápido, come acompanhada, come porque mandam, come logo cedo, come para trabalhar e come antes de dormir. Observa os outros comendo, toma muito cuidado ao comer. Não come frutas, não come sozinha em público, come por prazer e come para experimentar. Não sabe fazer nada pra comer, os outros têm que cozinhar. Há preferências e recusas, um prato predileto feito com amor e a falta de costume em relação a outras culinárias.
Mais importante do que o alimento, como é ingerido, com quem e quando, é o seu propósito para ela. Enfim, manter o corpo de pé. E para que?
Para dançar. Para atingir o grau máximo de perfeição, a nota completa, o giro correto, o pé exato e os braços certos. Sem alimento o corpo não tem forças, não fica de pé. E se não está de pé, não dança.
Falar com ela sobre comida não tem graça. Ela não vê graça na comida em si, mas no que ela proporciona. Ela consome com a esperança de que o metabolismo faça as massas, carnes e saladas tornarem-se fonte de energia. Come para o treino, antes e depois, para dar tempo de digerir e para obter resultados. Come sem pressão externa, não segue dietas, mas come concentrada. Come com um objetivo, além da saciedade e do prazer. Come porque o corpo demanda, e o corpo pede pela dança.
Come não só em gramas. Come o tempo entre um ensaio e outro, come as horas de preparação. Come o próprio suor e o das colegas, come a meia, o collant e as sapatilhas que usa no dia a dia. Come o público da apresentação, come a maquiagem e o gel no cabelo, come o figurino, as luzes e a trilha sonora. Come até a dor nos joelhos, que é palatável, come a professora. Saboreia o tempero do rigor, da exigência e dos elementos técnicos.
Tudo isso adquiriu um gosto conhecido. Em todos esses anos de dedicação, a dança criou o fogo a preparar todas as outras ações. Comer era um investimento em uma decisão maior, a de dançar por muitos e muitos atos, sem hora para acabar.
Mas parou. E não parou porque estava satisfeita, parou porque lhe tiraram o prato. Estando sem aquela receita estabelecida, diante de tantos sacrifícios que fez para juntar todos os ingredientes, não enxergou meios de continuar. E engordou, e emagreceu de novo, e algo mudou no seu corpo. Não é uma carência no exame de sangue, não são as dobras ou as magrezas da pele. Não é só isso. O que acontece é que a dança não a devora mais, mas o apetite permanece.
Mais importante do que o alimento, como é ingerido, com quem e quando, é o seu propósito para ela. Enfim, manter o corpo de pé. E para que?
Para dançar. Para atingir o grau máximo de perfeição, a nota completa, o giro correto, o pé exato e os braços certos. Sem alimento o corpo não tem forças, não fica de pé. E se não está de pé, não dança.
Falar com ela sobre comida não tem graça. Ela não vê graça na comida em si, mas no que ela proporciona. Ela consome com a esperança de que o metabolismo faça as massas, carnes e saladas tornarem-se fonte de energia. Come para o treino, antes e depois, para dar tempo de digerir e para obter resultados. Come sem pressão externa, não segue dietas, mas come concentrada. Come com um objetivo, além da saciedade e do prazer. Come porque o corpo demanda, e o corpo pede pela dança.
Come não só em gramas. Come o tempo entre um ensaio e outro, come as horas de preparação. Come o próprio suor e o das colegas, come a meia, o collant e as sapatilhas que usa no dia a dia. Come o público da apresentação, come a maquiagem e o gel no cabelo, come o figurino, as luzes e a trilha sonora. Come até a dor nos joelhos, que é palatável, come a professora. Saboreia o tempero do rigor, da exigência e dos elementos técnicos.
Tudo isso adquiriu um gosto conhecido. Em todos esses anos de dedicação, a dança criou o fogo a preparar todas as outras ações. Comer era um investimento em uma decisão maior, a de dançar por muitos e muitos atos, sem hora para acabar.
Mas parou. E não parou porque estava satisfeita, parou porque lhe tiraram o prato. Estando sem aquela receita estabelecida, diante de tantos sacrifícios que fez para juntar todos os ingredientes, não enxergou meios de continuar. E engordou, e emagreceu de novo, e algo mudou no seu corpo. Não é uma carência no exame de sangue, não são as dobras ou as magrezas da pele. Não é só isso. O que acontece é que a dança não a devora mais, mas o apetite permanece.
domingo, setembro 29, 2019
Oi
Se meus professores soubessem que eu escrevo aqui, ah, eles me matavam.
Não pela qualidade, pelos temas ou pelo estilo. Mas pela ideia de jerico de manter um Blogspot em pleno 2019.
Tem jeito mais antigo de divulgar os meus escritos? Tantas ferramentas, aplicativos que eu poderia utilizar, tantas formas de propagar as minhas ideias, e eu insisto num blogzinho muito amador, mal-acabado, sem design nenhum. Não levo nada para as minhas parcas redes sociais; não aproveito o que a tecnologia me oferece. Só posto aqui uma vez por mês, de acordo com a meta preguiçosa que eu estabeleci, e deixo os meus textos públicos, tomando ar. Quem quiser vir, que venha. Quem souber de antemão que esse é o meu lugar, por acasos do destino, e quiser ler, que o faça.
Ao jogar meu nome na internet, esse endereço até que é fácil de achar. Mas por que diabos alguém jogaria meu nome na internet, pesquisaria sobre mim aleatoriamente? Enquanto eu não linkar esse meu trabalho com os perfis que já tenho e cultivá-los pouco a pouco com meus textos, não há motivos para que esse blog ganhe mais do que um comentário perdido por ano.
Pode não ser essa a melhor hora para isso. Não é o momento certo para eu investir e esperar algum retorno, eu deveria me atualizar e me lançar apenas quando estivesse mais preparada. Mas é isso o que eu posso fazer por enquanto; é assim que eu gosto de escrever, e continuar com isso já me é mais do que prazeroso. Não devo ter medo de tentar expandir um pouco o público que aparece na minha sala de estar para me dar um oi.
Não pela qualidade, pelos temas ou pelo estilo. Mas pela ideia de jerico de manter um Blogspot em pleno 2019.
Tem jeito mais antigo de divulgar os meus escritos? Tantas ferramentas, aplicativos que eu poderia utilizar, tantas formas de propagar as minhas ideias, e eu insisto num blogzinho muito amador, mal-acabado, sem design nenhum. Não levo nada para as minhas parcas redes sociais; não aproveito o que a tecnologia me oferece. Só posto aqui uma vez por mês, de acordo com a meta preguiçosa que eu estabeleci, e deixo os meus textos públicos, tomando ar. Quem quiser vir, que venha. Quem souber de antemão que esse é o meu lugar, por acasos do destino, e quiser ler, que o faça.
Ao jogar meu nome na internet, esse endereço até que é fácil de achar. Mas por que diabos alguém jogaria meu nome na internet, pesquisaria sobre mim aleatoriamente? Enquanto eu não linkar esse meu trabalho com os perfis que já tenho e cultivá-los pouco a pouco com meus textos, não há motivos para que esse blog ganhe mais do que um comentário perdido por ano.
Pode não ser essa a melhor hora para isso. Não é o momento certo para eu investir e esperar algum retorno, eu deveria me atualizar e me lançar apenas quando estivesse mais preparada. Mas é isso o que eu posso fazer por enquanto; é assim que eu gosto de escrever, e continuar com isso já me é mais do que prazeroso. Não devo ter medo de tentar expandir um pouco o público que aparece na minha sala de estar para me dar um oi.
Em outridade
Tem aquele, o outro. Aquele outro que está em todos os sonhos, os arrepios e os olhares errados. Putz, é bom, mas tem algo de desconfortável.
Não importa o fato de que, quando ele abre a boca perto de mim, ele se torna muito menos interessante e cheio de buracos. Ele de verdade, apesar dos meus esforços, seria insuficiente para qualquer coisa que não me emprenhar de imaginações impuras com o seu cheiro, as suas mãos e o seu sorriso. E essa não é uma questão de sexo propriamente dito, mas de poder que eu exerço sobre mim mesma (nenhum), sobre os outros (testando limites) e sobre essa narrativa louca que eu criei. Dou corda para essa coisa aparentemente impossível e vou quebrando meus próprios acordos, como eu já fiz outra, e outra vez – e tive motivos para entrar em guerra comigo mesma para não atirar em ninguém. Preferi sair brigada com o meu reflexo do que perder meus pilares, arrependida do sim que era não – e que pouco deixei respirar.
Isso é sujo? É errado? Então por que me dá tanto prazer e eu insisto em pensar? Por que essas ideias batem na minha porta e eu insisto em atender, contra tudo que eu imaginava? Ou assumo que é um desvio de programação, no qual eu vou insistir porque sim – porque me instiga –, ou me censuro com menos ódio. Vou tentar fingir que não fui eu que cheguei às últimas consequências, ao último centímetro do abismo, e até dei risada do que vi.
Não importa o fato de que, quando ele abre a boca perto de mim, ele se torna muito menos interessante e cheio de buracos. Ele de verdade, apesar dos meus esforços, seria insuficiente para qualquer coisa que não me emprenhar de imaginações impuras com o seu cheiro, as suas mãos e o seu sorriso. E essa não é uma questão de sexo propriamente dito, mas de poder que eu exerço sobre mim mesma (nenhum), sobre os outros (testando limites) e sobre essa narrativa louca que eu criei. Dou corda para essa coisa aparentemente impossível e vou quebrando meus próprios acordos, como eu já fiz outra, e outra vez – e tive motivos para entrar em guerra comigo mesma para não atirar em ninguém. Preferi sair brigada com o meu reflexo do que perder meus pilares, arrependida do sim que era não – e que pouco deixei respirar.
Isso é sujo? É errado? Então por que me dá tanto prazer e eu insisto em pensar? Por que essas ideias batem na minha porta e eu insisto em atender, contra tudo que eu imaginava? Ou assumo que é um desvio de programação, no qual eu vou insistir porque sim – porque me instiga –, ou me censuro com menos ódio. Vou tentar fingir que não fui eu que cheguei às últimas consequências, ao último centímetro do abismo, e até dei risada do que vi.
Cauterização sem fogo
Há alguns meses tive uma afta.
(Não sei se essa história pode começar sem alguns parênteses).
(Eu tenho um problema crônico com aftas, herdado do meu
pai. Tenho muitas, frequentemente em grupos, por toda a boca, principalmente
quando estou com a imunidade baixa).
(Rapidamente, o que é uma afta? De acordo com o site do
dr. Drauzio Varella, “aftas são pequenas úlceras rasas que aparecem na cavidade
oral, geralmente na mucosa bucal, nas gengivas e embaixo da língua”).
(Prossigamos).
Há alguns meses tive uma afta. Como todas as outras que a
acompanharam, era muito feia, de bordas brancas e absolutamente sensível. Usei
da minha experiência com pomadas específicas para tratá-la, às vezes esquecendo
e sem querer enfiando a escova de dentes bem no centro da dor.
Um novo ciclo de aftas apareceu e essa afta em específico
continuou feia. Estacionou na gengiva, em cima do primeiro pré-molar superior
direito. Não se curava por nada e continuou comigo por bem mais de um mês – sem
melhorar, aparentemente só piorando.
Fiquei desconfiada, mas não quis denunciar a minha
apreensão. Falar disso para alguém tornaria público o meu medo, e conscientizaria
a afta do incômodo que me causava. Se a afta soubesse o quanto me machucava a
sua presença, antes irritante, agora preocupante, ela ganharia sua batalha
contra o meu corpo, inútil na tarefa de se recuperar.
Guardei de boca fechada esse segredo que sangrava e
latejava. Mal comia, nem falava, não beijava. Ficamos juntas por mais algum
tempo, cultivando uma intimidade doída, já que não podia cortá-la fora – era um
machucado para dentro, e atentar contra o tecido frágil só aumentaria seu poder
sobre a situação. De um dia para o outro ela decidiu ir embora, assim sem mais
nem menos. Mas não teve tempo de sarar totalmente.
Em seu lugar ficou uma horrível cicatriz, muito pior do
que a que eu ganhei quando tirei o aparelho fixo. Um buraco descomunal em
largura e profundidade, mais parecido com uma cratera quando eu o sinto com a
ponta da língua.
Sorri de todas as formas em frente ao espelho para saber
o quanto esse buraco me estragou. Eu tenho para mim que é um furo até à raiz do
meu dente, chegando ao osso do maxilar. Mas não há nada visível a olho nu,
apenas uma marca discreta que se mistura à ondulação normal da gengiva. Eu
poderia continuar a minha vida despreocupada, sem ninguém jamais saber do
defeito que eu escondo atrás do meu lábio superior, à direita.
Infelizmente não sei como conviver com esse buraco, muito
pior do que a afta ativamente maligna. Enquanto o machucado vivo pulsava e
todos os dias ameaçava infeccionar, a cicatriz não faz nada, não cheira nem
reclama, mas me feriu muito mais. Mudou a textura e a sensibilidade da minha
boca onde ela estava mais resguardada, e pensar nisso me dilacera.
A cicatriz se fechou com pressa e manteve algo de ruim
dentro, sem espaço para crescer. Esse deixou de ser um ponto sensível, uma
fonte que jorrava sangue para encobrir a dor. Ficou a conclusão malfeita, a
reforma corrida e uma marca irresolúvel. Onde antes havia carne, tenho só a sua
falta.
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