quinta-feira, junho 07, 2018

A vingança é um prato que se come congelado

O celular não parava de apitar e ele continuava a dormir pesado. Ela alcançou a tela em meio aos lençóis e se assustou com a claridade. De sua miopia, só conseguiu ver um mesmo nome feminino repetido diversas vezes, titulando emojis, pontos de exclamação e reticências. Acompanhados de palavras de baixo calão bem sugestivas.
Decidiu desbloquear o aparelho. Ao seguir naquela conversa, com o coração explodindo, ela queria ser pega no pulo e apanhar, ouvir gritos até ficar surda e não ter respostas para legitimar o ciúme. Mas ele permaneceu em um ronco baixo e ela continuou lendo. Voltava na leitura um dia, uma semana, doze dias, sem que o assunto esfriasse.
A ardência da conversa estimulou a quentura de seu sangue. Do coração quebrado nasceram imensos chifres, a encher seus olhos de lágrimas e ódio. Mal deu tempo de pegar as roupas espalhadas no chão e tirar a calcinha do avesso para vesti-la. A malha e a blusinha que ficavam, respectivamente, em cima e embaixo da camisa, se perderam na pressa.
Sem respirar, fechou a porta do quarto e a do apartamento. Desceu à rua e atravessou um, dois, três quarteirões, tremendo nos saltos até a padaria. A certeza que a nutria nos últimos meses se mostrara insípida e o vazio se transportava do peito ao estômago. Precisava preenchê-lo por segurança, não por apetite. Uma opção honesta de comida destoaria da situação.
Pediu duas bolas de sorvete de chocolate para congelar os ânimos. Naquela hora da manhã, a casquinha gelada poderia tomar o tempo que precisasse para ser saboreada. Do sólido para o líquido a cada lambida, como todos os sabores a derreter e todos os pingos que mancharam suas roupas, este não seria o final. Aquilo não era a sobremesa.
Era só o aperitivo.

quinta-feira, abril 12, 2018

Quinta-feira

Esta é uma sala de silêncio e risadinhas. Ninguém consegue ir além do próprio silêncio e ninguém sabe fazer mais do que as próprias risadinhas. É tão vazio e tão odioso. São as minhas companheiras hienas, que mal aproveitam a carcaça do que os professores jogam para seu público.
Faz um frio dos diabos no fundo da sala e não há nenhum som audível além do ar condicionado. São quatro dúzias de estudantes reunidos, metade olhando para frente de forma contínua. O resto, eu incluída, olha para baixo, para os lados ou vira os olhos para dentro da órbita ocular, ignorando o que se passa alguns metros à frente.
O professor pede um voluntário para algum exercício rápido. Para variar, ninguém concorda em ser exposto. Ele repete as instruções, eu continuo sem entender, mas peço para ter meu texto analisado.
Ninguém aqui me conhece. Ninguém sabe de onde eu venho. Gostaria muito de uma vez estar no centro da roda para ser julgada, apedrejada, aplaudida, cuspida. Estou há muito tempo em salas de aula e qualquer vergonha que eu tenha de aparecer nesse ambiente controlado e asséptico, tento sempre reduzir a zero.
Ele com certeza pensou bastante tempo em como reproduzir um acontecimento, a partir do qual eu deveria escrever uma única lauda. Tem o seu script de abrir a porta e fechar para realizar algo impactante; e é interrompido.
Entra na sala o espécime masculino mais maravilhoso do mundo. Ele tem os cabelos loiros, as mãos suaves, o queixo forte. Além do atraso notável, demonstra segurança e carrega consigo os cabelos mais lindos que eu já vi na minha vida. Eu não consigo desviar o olhar enquanto ele se esgueira pelas cadeiras – uma fileira de garotas pouco solícitas evita lhe dar licença – e chega a seu destino final, um assento nos fundos. Como eu ia prestar atenção a qualquer coisa que se passava em qualquer outro lugar do mundo?
O professor avisa que pronto, era isso que ele queria fazer. Era isso que ele queria demonstrar – só isso, uma coisa qualquer que eu deixei passar, mas estou com o coração acelerado e irremediavelmente de ponta cabeça. E tenho vinte minutos para escrever sobre isso.

sábado, agosto 12, 2017

Um de cada

Hoje são dez anos com um blog. Entre várias mudanças de endereço físico e viagens, tenho há uma década um lugar na internet no qual ninguém além de mim toca.
Por três ou quatro anos eu escrevi furiosamente e sozinha dei conta de coisas obscuras. Imaginação a mil, liberdade e criatividade. Transpirava como um porco para ter inspiração: lia muitooo mesmo. Enchi minhas prateleiras, passei horas em livrarias, rasguei muitos pacotes do correio, aluguei metros de livros. Me dediquei e comprometi de forma extrema como uma pessoa apaixonada pela escrita e pela leitura.
Quem eu era e em quem eu me transformei? Pelo que eu me deixei levar para ter mudado tanto? Que transformação é essa na minha cabeça para eu ter me distanciado desse amor? Procuro um culpado porque recuso a acreditar que eu tenha a capacidade de me fazer tamanho mal. Às vezes eu consigo escrever e gostar, mas não é a mesma coisa nem de longe. É um robô sem concentração, contando caracteres e segundos, levado pela maré sem saber nadar, em cima de uma bóia furada.
Não reconheço nem admito que ocupo o mesmo corpo de dez anos atrás. Vejo como se todas as minhas células tivessem morrido e sido substituídas aos poucos, até não sobrar nada anterior. E nos ossos fraturados, ficaram as marcas identificáveis? E as cicatrizes nos ligamentos, elas permanecem uma dor quando o tempo esfria? E as glândulas piradas, elas aprenderam a se comportar em momentos de nervosismo? E a larga tatuagem no braço esquerdo, ela não sai nem com água fervendo? Vou fingir que o cabelo engrossou e as unhas cresceram em definitivo, não tem mais nada de infantil nesse corpo. Sou outra, que em nenhum grau parece com o que eu imaginei que seria.
Sinceramente, eu não imaginei nada. E se pensei, não me lembro. Então não faz diferença quem eu sou, devo ser ou posso ser. Não tenho trilhos para seguir nem modelo a copiar. Sou a soma dos meus defeitos e qualidades, as experiências, coragens e medos, as alergias e os sorrisos, o vômito de nervoso que eu segurei aquela vez, o problema no fundo da garrafa e o sorriso ao volante. Sem entender cada um desses pequenos pedaços e aprender a dançar no ritmo que eles produzem dentro de mim, eu não sou nada.

domingo, julho 16, 2017

Coisas a fazer

Pensei em nomear essa série de listas como “coisas que gostaria de fazer” ou “coisas que quero fazer”. A primeira ideia me pareceu muito distante, e a outra muito próxima. Nada está planejado nem estabelecido, nem um centavo investido ou poupado para nada. Entre o intangível e o definitivo, decidi por apenas “coisas a fazer”, um rol de sonhos sem compromisso, organização de vontades livres que sobrevoam os meus pensamentos.

GPs de Fórmula 1 a assistir
Sou muito fã de Fórmula 1, amo ler e assistir sobre esse esporte, mas nunca fui em nenhum Grande Prêmio de São Paulo. Alguns circuitos que tenho vontade de conhecer:
-Budapeste - quero voltar
-Cidade do México - quero visitar

Idiomas a aprender
Adoro estudar novas línguas, posso dizer que tenho grande facilidade para pegar um idioma. Já tenho conhecimentos em inglês, espanhol, alemão e francês, e consigo me virar satisfatoriamente nas três primeiras. Quero fazer aulas pelo resto da minha vida e viajar muito para praticar e conseguir fluência também em:
-Italiano
-Árabe

Países com P a conhecer
Uma coincidência: os países sobre os quais mais tenho pesquisado para fins turísticos começam com P. Passaria uns 15 dias em cada um e acho que não têm quase nada em comum:
-Peru
-Polônia
-Portugal

Antes disso, muito antes de qualquer passo, estou me apoiando em três coisas:
-Remédios, um comprimido toda noite
-Terapia, uma hora a cada sete dias
-E exercício físico, meia hora três vezes por semana

Assim como antes eu contava até três de forma sagrada - por ser o número máximo de doses de tequila que eu aguentava de uma vez-, dessa vez as três coisas da última lista têm me feito sobreviver. São a garantia de um dia com começo, meio e fim, um de cada vez. Aos poucos.

terça-feira, julho 19, 2016

Pancada

Cada vez que o meu coração bate, é alguma coisa que está batendo pra sair. Às vezes amigavelmente, às vezes esmurrando. A batida na porta, toc toc nas costelas, aquilo que eu incansavelmente preciso externar.
A visita que quer ir para fora do meu peito, incomodada e envergonhada, vai se voltar para dentro e quebrar tudo se não for aberta a porta. Uma mísera fresta na janela não serve.
Tem algo ali sim, não é apenas um processo fisiológico. É a emoção que me domina e que eu quero gritar. Se ela não sair, eu morro.