quinta-feira, fevereiro 28, 2019

MS - 1

Ela ainda saía com vários caras por mês, uma ou duas vezes com cada um, e recebia aqui e ali alguns mimos; relações amadoras, nada financeiramente significativo, que não chegavam nem perto de bancá-la ou diverti-la. Anos de faculdade, cursava Jornalismo aos trancos e barrancos, sem a mínima disposição de um dia se formar e ter que procurar por empregos de verdade. Sobrevivia bem com a mesada do pai enviada do interior do Estado.

Até que conheceu o Marcelo. Foi apresentada como namorada de seu filho, Thiago, um de seus clientes mais novinhos. Ele sacou na hora qual era o envolvimento ali, e ela percebeu sua atenção. Louro, alto, bastante forte, ela não conseguia desviar do pai durante o jantar de aniversário do filho. Que ombros eram aqueles? Ele também demonstrou seu interesse nela, de um jeito muito discreto. Era absolutamente maravilhoso.

Entre um prato e outro, ela comentou sobre as fazendas de sua família, e mencionou questões trabalhistas que frequentemente requeriam um advogado. Marcelo, muito solícito, serviu mais vinho em sua taça e passou seu cartão pedindo que entrassem em contato quando fosse necessário. Seu escritório, segundo ele, possuía grande experiência na área. Ela sorriu e agradeceu.

Uma semana depois o namoro de fachada acabou, o pagamento final caiu em sua conta bancária e ela foi em busca de um vestido novo para impressionar Marcelo; pensava em sair com ele nos próximos dias. Passeando pelo shopping, olhava a vitrine de uma loja chique, onde as vendedoras eram suas amigas, quando reconheceu Alice, a esposa de Marcelo. Preferiu ser discreta e escolher uma estampa de outra grife.

quarta-feira, janeiro 30, 2019

A lagartixa

Eu estava tomando banho de porta aberta, a última coisa a fazer antes de dormir. Ao passar o shampoo no cabelo, levantei os olhos e vi alguém andando em cima da porta.

Um rostinho escuro, correndo frio. Uma lagartixa.

Ela percebeu que eu a notei. Parou na beirada da porta e encarou as toalhas penduradas na parede oposta. Calculava um pulo de fuga e engoliu seco ao ver que não teria sucesso. De vez em quando espiava a minha paralisia, só pensando: o que faço agora? Eu pensava a mesma coisa.

Terminei meu banho aos poucos. Para disfarçar, ela mudou de tática e decidiu me encarar fixamente. Não quis perder a pose de quem está no alto, mas já tinha consciência da minha intenção de despejá-la. Devagar, saí do box do chuveiro atenta a cada movimento, uma faca que ela pode puxar de dentro do casaco, uma arma na bolsa. Fui para o quarto sem tirar os olhos dela, que se mexeu para deixar um bracinho e uma perninha à vista, quase na dobradiça da porta. Vi as pontinhas pretas dos dedos, manicure escura.

Liguei duas vezes para a minha mãe e não fui atendida. Tentei encarar dignamente o fardo que se apresentava: busquei na lavanderia um rodo e uma vassoura, onde eu esperava equilibrar a lagartixa para transportá-la até a varanda.

Eu entrei no banheiro, de vassoura em punho, e aconteceu o inacreditável.

A lagartixa olhou para mim.

Um olhar de deboche, de desprezo a disfarçar. Eu baixei a guarda na mesma hora.

Depois de alguns minutos tentando recuperar a moral abalada, decidi pegar também uma pá para acomodá-la melhor – caso eu ao menos conseguisse encostar a vassoura nela. Concentrando-me na estrita necessidade de ter paz para dormir, ergui os objetos, e meu coração deu um pulo no peito.

O barulho do celular cortou todo o meu ímpeto. Finalmente minha mãe se dignou a retornar as chamadas não atendidas. Eu contei a história falando baixo, para a lagartixa não ouvir como eu me sentia indefesa. Recebi o pífio conselho de fechar a porta do banheiro e me contentar com uma toalha protegendo o batente inferior.

Indignada, comecei a bater boca pela sugestão pouco útil, o clima esquentou, a lagartixa tentou virar o corpo para escutar melhor que planos eu arquitetava. Ela passou a cabeça por cima da porta, esticou o pescoço fininho, me olhou satisfeita com o clima de desespero que tomava conta do quarto. Só não contava com a madeira escorregadia pelo vapor do banho, e plaf no chão. Eu gritei ao telefone e causei em minha mãe um ataque de risos.

Agora sim decidi chamar minha avó, que tinha ido dormir há pouco tempo. Ela trouxe a tática do saco: colocar o animal num saco plástico, sabe-se lá como, e jogar o saco na varanda. Quando entramos no banheiro para capturá-la, nada da lagartixa. Sumiu.

Eu já estava enfurecida com a audácia. Encontrei-a embaixo da pia, covarde, na quina do azulejo, traída pelos olhos escuros bem abertos. Na base dos cutucões com o rodo e aos gritos, ela foi para dentro do box molhado. Dali não conseguia escalar paredes, só correr meio tonta para lá e para cá.

Minha avó assumiu e em poucos segundos fez a lagartixa entrar no saco. Ergueu o plástico contra a luz e pude ver o corpinho preso.

Depois disso, não posso deixar de mencionar que ainda insisti em discutir sobre o despejo da lagartixa. Eu fazia questão de levar o saco para fora e quis tomá-lo da minha avó a todo custo. Ela não demorou a me entregar a prisioneira ensacada, doida para fugir, e, antes de ir para o quarto, disparou: agora come essa lagartixa!

terça-feira, janeiro 01, 2019

As oito metas de 2018

Há mais ou menos doze meses eu marquei na primeira página da minha agenda oito metas simples, pensadas para o ano que viria. Nunca tinha feito isso, e em pouco tempo criei objetivos próximos do possível para mim – não queria malabarismos, queria coisas para o meu bem. 2017 havia sido o primeiro ano em que eu assumi o compromisso de tratar a minha depressão seriamente, com terapia, remédios e exercícios, e a partir dessa decisão várias coisas boas puderam surgir. Houve momentos em que eu quebrei a cabeça para pensar um rumo mais interessante para o meu futuro - o que eu era incapaz de fazer até então - e era a hora de colocar isso no papel para o ano seguinte. Ao final desse período, revisito essas metas, elencadas como na minha agenda, em nenhuma ordem especial:

1) Concluir o curso de Relações Internacionais (3 matérias + TCC): minha história com essa graduação se arrastava desde o início de 2013 e eu estava cada vez mais infeliz com o curso. Nada parecia dar certo e cada resultado negativo que eu acumulava era mais um estímulo para eu desistir de vez. Até o meio de 2017, quando eu botei na minha cabeça que me formar em RI era indispensável para a minha próxima meta, eu não tinha nenhuma ideia de quando ou como poderia me graduar. Faltava tão pouco, eu estava quase na praia, mas não tinha vontade de nadar. Em 2018 me esforcei loucamente, passei nas três únicas matérias que faltavam (entre elas Cálculo e Estatística, que me apavoravam desde o primeiro ano) e entreguei meu trabalho de conclusão de curso (no forno desde 2015). A colação de grau, algo que eu nem sonhava, será em março.

2) Voltar a estudar Jornalismo: seguir somente com RI era algo que me deixava muito insatisfeita porque eu não sentia naquilo uma paixão. É um campo que eu aprendi a amar e respeitar, mas não me bastava. Sentia a falta de um complemento para o que eu aprendia, um modo de colocar em prática tudo que eu estudava. Decidi correr atrás do ano de Jornalismo que eu já tinha feito lá longe, em 2013, e trancado por não aguentar fazer duas graduações ao mesmo tempo. Com mais planejamento e determinação, prestei o vestibular para reaver a minha vaga e me matriculei no segundo ano da graduação. Terminei os dois semestres sem grandes loucuras nem arrancar os cabelos, muito mais tranquila com a escolha que fiz.

3) Melhorar a minha alimentação: eu precisava não de uma reeducação alimentar, mas de uma educação desde o nível mais básico – eu não comia quase nada. Sem a ajuda de uma nutricionista, muito dificilmente teria alcançado alguma melhora sozinha. Aprendi novos sabores, texturas e pratos, e isso extrapolou o que eu esperava. Infelizmente, com a lesão que tive em abril, da qual falo mais na próxima meta, perdi o tesão em me alimentar de maneira melhor e mais regrada por um tempo. O lado bom é que essa semente já foi plantada em mim, e sem dúvidas quero voltar a ter esse empenho.

4) Fazer exercícios físicos regularmente: até abril estava tudo uma maravilha. Eu corria que era uma beleza, tinha pique, ânimo e bons resultados. Quando me machuquei, entrei em parafuso e fiquei em pânico com a possibilidade de ter ferrado de vez meu tornozelo – de novo, de novo e de novo. Cada mínima pontada de dor me deixava mais para baixo e eu escolhi o sedentarismo por medo e comodidade. Demorei para marcar a fisioterapia, e muito mais para readquirir confiança em mim – e no meu pé, meio fraquinho, mas ainda o meu pé.

5) Continuar com os remédios e a terapia: não são baratos ou fáceis. Não é só engolir toda noite um comprimido que aparece magicamente na minha gaveta ou chegar em tempo para uma sessão de uma hora toda semana. Quando percebi que comecei a melhorar substancialmente com essas duas coisas, levantei uma resistência na minha cabeça. Um medo da dependência, não queria admitir que isso funcionasse. Consegui grandes progressos e, por mais que às vezes bata uma dúvida ou outra, não pretendo parar.

6) Voltar a estudar alguma língua estrangeira: essa foi uma promessa bastante otimista. Não sabia que eu realmente não teria como me dedicar a nada além das faculdades e do TCC esse ano. Tudo bem, não desisti, apenas adiei essa meta.

7) Arranjar um bom estágio no segundo semestre: novamente, eu achava que teria mais tempo e que não teria problema em acumular várias tarefas. Até fui chamada para uma vaga muito legal no fim do primeiro semestre, mas tive que recusar - depois vi que foi bom não ter aceitado.  Quando escrevi essa meta, não imaginava que no último mês do ano conseguiria a vaga de estágio dos meus sonhos para o ano seguinte. De forma inesperada, consegui cumprir com o que eu tinha planejado.

8) Ler 30 livros em 12 meses: há alguns anos eu já não lia como antes. Primeiro pensei em dois livros por mês, nada de outro mundo para os meus hábitos passados. Aumentei a contagem em seis para arredondar o número final. Infelizmente empaquei em vários livros chatos (comecei, desisti, abandonei) e tive muitas coisas para ler em ambas as faculdades. Terminei o ano com 17 livros lidos, e pela primeira vez anotei o nome de todos.

Outras coisas interessantes (para mim, pelo menos) que eu consegui em 2018: cortei meu cabelo bem curto e aprendi a fazer minhas próprias unhas. São coisas que parecem simples, mas que impactaram muito a minha imagem e autonomia nesse ano.

Para o próximo ano, já pensei nas minhas metas, e vou escrevê-las na minha agenda assim que postar esse texto. Mantive três das que fiz para o ano passado, pensei em três bastante desafiadoras (mexem com medos e incertezas) e coloquei também duas relativamente bem bobinhas, para ter a certeza de segui-las. Mal posso acreditar que esse ano vai começar, e não tenho ideia do que vou encontrar no caminho. Quero olhar de longe com um pensamento otimista, tão diferente do meu mau humor de sempre, para que eu não me deixe cair de novo, sem forças para levantar, no poço sem fundo que eu já conheci.

terça-feira, novembro 27, 2018

Túnel

Vou tentar explicar o que vi acontecer com o meu irmão deprimido.

Eu estava sentado numa poltrona em seu quarto, lendo para passar o tempo e fingindo tomar conta dele à meia-luz do final de tarde. Depois de muitas e muitas horas dormindo, ele rolou na cama pela centésima vez para cobrir o rosto com o travesseiro. Acabou caindo no chão de cara.

Para quem esperava uma reação, um gemido de dor ou um suspiro de fracasso, não veio nada. Ele continuou do mesmo modo que caiu, braços junto do corpo, rosto para baixo. A queda foi seguida apenas pelo silêncio.

O corpo começou a se mover deitado pelo chão... Mas não de um jeito normal. Não estava serpentando ou rastejando. Não era como um filme de animação de massinha, com quadros em stop-motion. Não flutuava acima do chão, como o skate de ‘De Volta Para o Futuro’. Não se arrastava nem era carregado. Meu irmão mantinha uma velocidade constante e não emitia qualquer som.

Seguia para longe da cama. Fazia manobras para desviar de quinas de móveis, passou por debaixo das portas. Esteve em todos os cômodos da casa e ninguém deu bola. No máximo riram e levantaram os pés. Acredito que a melhor aproximação seria a de que boiava numa correnteza, sem os altos e baixos da força da água ou qualquer obstáculo do leito.

Eu e o cachorro da casa acompanhávamos aquela bizarrice alguns passos atrás, sem coragem de intervir. Não parecia real, mas estava acontecendo – ele estava em movimento sem se movimentar. Vimos seu corpo descer as escadas sem problemas, alcançar a garagem e passar por debaixo dos carros. Pareceu tomar algum impulso para ultrapassar o portão e... chegou à rua.

Então finalmente levantou da inércia. Saiu correndo sem olhar para trás.

terça-feira, novembro 06, 2018

Olho por olho

Para enxergar o que é bem pequeno e passa quase despercebido aos meus olhos, conto com uma lupa antiga e ensebada na mesa do meu escritório. Deixo-a deitada em cima de uma pilha e textos, protegendo-os do vento do ar condicionado e de quem acha que pode arrumá-los. Com ar antigo, ela funciona como peso de papel chique, um reminiscente de uma profissão que acabei de começar a escrever.

A lupa tem quase 15 centímetros em seu comprimento – 2 terços são a lente grossa, 1 terço é o cabo de madeira pintado de preto. Tem umas letras pequenas escritas na borda inferior do vidro, algo tão minúsculo que eu precisaria de uma outra lente para enxergar com propriedade. Na ponta do cabo, um protetor de borracha ou plástico, não sei bem de que material, eu insisto em cutucar com a unha quando não tenho inspiração pronta.

Em dias de bagunça no trabalho, a lupa some num cenário amplo que não representa apenas o jornalismo, mas também outros pedaços da minha vida desfocada; vira detalhe pequeno do meu tesão em ver as coisas com mais clareza, procurar sempre, até encontrar o ponto que faltava. Às vezes é difícil de achá-la na confusão de bolsa de ponta cabeça, caixa de lenço de papel, escova de dente e uma cartela de remédio quase acabando. Quando preciso de ordem, junto os papéis que eu li e enchi de marcadores coloridos e os arrumo nem muito na ponta, nem muito no centro da mesa. Deposito a lupa pesada no centro exato da primeira folha.

Ela não é muito prática, admito; é desajeitada de segurar, desproporcional entre a finalidade do peso do vidro e o final amadeirado. Os documentos de letras miúdas que lhe dariam algum trabalho são escassos, sempre posso crescer a tela do computador. Sem a firmeza de uma mão que sabe que ali no cantinho do papel, milimetricamente posicionado, há algo a ser visto, ela tomba entre os dedos e cai em cima do pé. O vidro sobrevive, mas os dedos amassados doem.

A lupa fica em cima da minha mesa como uma mensagem, não como um objeto para o meu dia-a-dia. Quando encaixo a lente num olho aberto e fecho o outro, fazendo careta para meus colegas, ela serve para que os outros me olhem desproporcional à coisa pequena que eu sou, parte da engrenagem da escrita muito maior – e para que eu enxergue os outros, tão grandes, e aumente os seus detalhes, menores circunstâncias, no esforço de entender todo o mundo à minha volta.