terça-feira, junho 15, 2010

Capítulo 2

Nunca o terno tinha estado tão apertado e cheirando tanto a cigarro. Os óculos escuros modelo aviador cobriam os olhos vermelhos e as olheiras fundas; o dia estava com um espesso nevoeiro, e ele não enxergava um passo a sua frente, muito menos o céu acima. O sapato esquerdo estava desamarrado, mas ele o deixava assim, tendo medo de abaixar-se e acabar jogando-se no chão, sem forças nem vontade para levantar.
Estava no norte da Inglaterra, na minúscula cidade natal de Glória (não havia mais sentido em chamá-la de Sra. Charles), sua companheira há quase dez anos. Amigos, parentes, conhecidos, todos presentes. Imensamente tristes, mas não sentiam a aflição do Sr. Charles. Algumas mulheres ainda derramavam lágrimas escuras de maquiagem, enxugadas com lenços cinza de seda. Os homens davam apertos de mão esmagadores e tapinhas nas costas. Não diziam nada.
Zelar demais por Glória, abafá-la em suas vontades e desejos, piorou o alcoolismo que ela herdara do pai. Após a última bebedeira, uma das mais agressivas, ela bateu o carro contra um poste em Berlim. Com tanta velocidade que a lataria fora reduzida a uma escultura mórbida. Era agora uma pobre mulher envolvida em lírios num caixão sufocante.
Mas o pobre jovem bilionário teve que agüentar o triste velório de sua amada mulher, sem poder dizer o que sentia para ninguém.

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