terça-feira, junho 07, 2011

Vem

Tromba comigo sem querer, me encontra por aí. Que seja tudo ao acaso, que nada mais tenha propósito. Me faz perder o ar e me deixa sem palavras, puxa dessa alma envelhecida tudo o que está em sépia e põe brilho nas minhas ideias.

Esquece o porquê de o seu coração bater, esquece tudo o que você prometeu sabendo que não ia cumprir, esquece ela e esquece lá: volta pra mim. Quero ser feliz de novo.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Ana Lúcia Bastelardos

Ana Lúcia Bastelardos. A mistura bizarra de Candelabros com Bastardos (objeto e condição que orbitavam-na, sem que demorasse pensando nisso), mais o nome composto que se sussurra como os pecados de Lúcifer.

Amansada no confronto, encurralada e endoidada. Juventude numa lata de lixo, tantos traumas que um escritor de novela choraria por dias a fio. Fraqueza que às vezes vira força, ela não sabe o porquê. Dá pra conciliar paixão e tesão, fingir sem enganar, nessa vida esfarelada?

Ana Lúcia adocica a vida a lágrimas, salga a morte com a doçura das flores. Ela queria só o sol do fim da madrugada, a brisa fria que sopra no décimo quinto andar, os milhares de lençóis macios, quem sabe uma rouquidão estranha... Paz.

– Bastelardos, quer saber? Vou embora!

Um quinquilhão de ecos no escuro, portas batendo. Muitos, muitos, muitos que por sua vida passaram sem conseguir entender tal personagem, largando-a para que se consiga o próprio bem psicológico. Há alguém que consiga com ela coexistir?

Abre os olhos e dói ver. Sabe que o certo é querer cegar-se, porém não deixa de encarar a olhos frios todo esse horror da vida. Ana Lúcia enxerga por frestas; faz de modo insignificante, sem insignificar-se.

O tempo passa, opiniões e devaneios ficam para trás no ócio, tudo está enfim em escarlate mas mal adianta se fechar dentro das cortinas de seu palco particular. Ainda chovem palpites soltos, desconexos, improváveis, incontáveis, incompletos, tão absurdos que não chegam a fazer cócegas na confusão de sua alma. Ela tenta deixar de lado as ranhuras cheias de teias de aranha...

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Buraco negro

Meu coração cheio de amor
É um errante buraco negro
Como se o anestesista
Espetasse os próprios dedos

Nenhum transplante tiraria
Deste peito mal-tratado
Tal órgão apodrecido
Tanto sangue envenenado

Ninguém vê que esta máquina
Que eu finjo que funciona
Existe nas mentiras
Se sustenta naquele sem-vergonha...

Dizem que o doer é normal
Espero que o remédio possa tanto me ferir
Faça o favor de me destroçar
Me deixar sem existir

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Mais um

Há 16 anos chove torrencialmente todo dia 5 de Janeiro.

Acredite em mim, sempre chove. Não é metáfora relacionada ao meu aniversário nem analogia à pureza das águas do verão que vêm para limpar a minha alma... É fato, e dos bem esdrúxulos.

Acho que algo está reservado para mim, algum dia.

domingo, dezembro 19, 2010

Gelada emoção

O poeta desconhecido bem dizia: ‘Quando de artérias desentupidas jorra a vermelhidão absurda, / Só se pode rezar, / O caminho que ela segue/ Não é mais o rumo com a presumida autoria de Deus. / Ela simplesmente jorra/ De acordo com as batidas do coração/ Que morre.’

Ainda que a lâmina fosse pouco afiada, tzáz, e um horizontal corte na jugular. Horror, tragédia? Calma, era só um manequim, um aluno desinteressado demonstrando qualquer coisa numa aula de Cirurgia Geral da faculdade.

O pedaço de matéria plástica que imitava os sofrimentos e dores humanos não abriu os olhos ou gemeu de dor. Nada de vida ali. No máximo, houve um levíssimo tremor, esse vindo da mão que manuseava sem muito cuidado o bisturi. Tesoura Metzenbaum e feito um furo profundo no peito, sem alcançar coração algum.

Um primitivo instinto, vindo das profundezas do estômago do quase doutor, confundiu a mistura de espuma e látex cor da pele com carne e disse: Alimente-se. Horas e horas de jejum que se cessariam até, quase de modo canibal, com um boneco desanimado, futuramente um paciente. Até onde todo esse cansaço o levaria? Plantões e plantões em tantas noites (e pó e pó em tantas outras horas) que parecia plausível e adequada uma discussão dessas com o próprio cérebro.

O poeta, agora dentro da cabeça dele, prosseguia em seus devaneios: ‘Continue, avance, ganhe experiência, que no futuro esse diploma e essa magreza te valerão alguma coisa, seja um emprego que você não quer, seja uma aliança larga demais no dedo, seja uma vida vazia, seja uma pessoa vazia. Que valha menos do que plástico e sofra ainda mais caladamente que esse boneco’.