quarta-feira, novembro 17, 2010

Quando o emocional se torna físico

Fila longa no hospital. Chora alto o bebê nos braços da negra magra. Geme o homem que aperta um pano de enxugar pratos contra a perna que pinga vermelho. Grita sem parar a menina cuja mãe tenta amparar, pressionando um saco de gelo na mãozinha que parece estar quebrada. E mais dúzias de pacientes, de pé ou sentados, dirigiam o olhar sem rumo ao relógio tiquetaqueando baixinho. A sala de espera do pronto-socorro tinha todas as janelas abertas, entretanto o ar abafado não distinguia mais dentro e fora, fazendo todos suarem.
A recepcionista passa as mãos pela testa que pinga fadiga e exaustão. Seu estômago ronca tão alto que se todos fizessem silêncio sua fome se tornaria audível andares acima.
Chega perto uma jovem muito bela, decidida, porém de saúde frágil; seu estado é gravíssimo, sente que morrerá a qualquer minuto. Com as mãos no peito, um pano está amarrado forte passando por baixo de seus braços. A jovem se apóia na mesa de atendimento, suspira e pede por um momento a atenção da recepcionista, perdida na bagunça. Quer saber aonde ir, a quem choramingar, se há alguém nesse edifício, nesse mundo, que possa ouvir suas lamúrias e segurar sua mão quando doer. A funcionária do hospital bem que tenta, mas não entende o que a jovem diz; o barulho é ensurdecedor, alguém decidiu ligar a televisão e colocar no volume máximo o replay do desfile de escolas de samba daquele ano. Por linguagem labial, elas se entendem: ‘Aponte o seu problema’, a recepcionista fala.
A jovem com cuidado desata o nó. Duas metades de um coração em sangue pendiam pela blusa, daí o lencinho para segurá-lo dentro do peito mal-tratado.

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