sábado, agosto 15, 2020

Mare maré

Quando você for dormir

Eu vou sentar para escrever.

E das palavras que eu deixar no seu sonho

Vão vir as inspirações para eu criar uma história.

A história de uma praia.

 

Cujo mar se afastava cada vez mais da costa,

Ondas que batiam para se recolher, uma a uma,

O sol a pino sobre a areia úmida.

 

O mar se recolheu totalmente

Sem perspectiva de voltar.

Você decidiu andar em direção ao horizonte

Onde ainda via um resto de água.

 

O sal queimou os seus pés

os peixes se debatiam

as aves exaustas caíam do céu

os navios encalhados

os corais descobertos

Em linha reta

Para o fundo.

 

E você andou e andou

O horizonte às vezes parecia mais perto, e às vezes mais longe.

Você continuou andando

Cada vez menos atento ao sol que se punha.

 

Quando cansou de andar, você sentou

Na proa de um barco naufragado.

Já era quase noite

E nada do horizonte chegar.

 

Era melhor descansar por ali, antes que você acordasse

E o sonho acabasse

Quando você estivesse debaixo d’água.

 

Enfim, quem era você nessa história?

O pescador que quer puxar o texto da água a qualquer custo?

O anzol à espreita para prender as ideias que passam?

A isca exibida a atrair as histórias?

Ou o peixe idiota, que boiava com fome, e morreu pela boca?

sexta-feira, julho 17, 2020

A tampa do liquidificador

De plástico, o copo foi ao chão. E rachou inteirinho, sobrou só a alça intacta.

Como colar um copo de liquidificador, que precisa aguentar as rotações, impactos, forças, e ainda dar conta de picar, moer, misturar de sólidos a líquidos? Tentar colar é porquice, não vale a pena.

- Eu compro um copo novo amanhã, eu juro. Eu sei onde achar, é só passar nessa lojinha.

E o amanhã transformou-se em dia seguinte, que virou final de semana, que passou à próxima semana, que ficou para o fim do mês; e enquanto isso as receitas se adaptaram ao processador, a bater na mão e a fatiar os ingredientes ao menor tamanho possível.

Todos os esforços que permitissem normalizar a ausência de um liquidificador para a cozinha. 

Pois bem, chegou a pandemia. Do desespero de não saber se teria emprego para ganhar dinheiro, se teria dinheiro para sobreviver, se ao menos iria sobreviver, o liquidificador compreensivelmente deixou de ser a primeira das preocupações da vida dele. Afinal, estava impedido, por medidas sanitárias globais, de visitar a lojinha onde encontraria pessoalmente o copo que servisse ao seu modelo.

A desculpa que parecia passageira esticou-se no horizonte. O tédio dos dias em casa aumentou sua vontade de cozinhar de tudo, de rabada a rabanada, e ele não tinha o bendito copo. Num dia de súbita empolgação, entrou online no Magazine Luiza, nas Lojas Americanas, no Extra e até no Enjoei, decidido a encontrar um substituto.

No fim descobriu o número da lojinha de esquina em que planejava ir antes de tudo isso. Ligou e em cinco minutos o copo estava a caminho na garupa do motoboy, já devidamente higienizado.

Ele recebeu a sacola, que ficou por três dias atrás da porta, junto com a saudade atrasada de cozinhar decentemente. E se tivesse esquecido todas as manhas de fazer um bolo?

Será que o novo normal para ele seria não saber mais cozinhar? Que prognóstico deprimente.

Enfim abriu a sacola, resgatou o copo novo (lavou mais uma vez) e encaixou no liquidificador. Perfeito, feitos um para o outro. Tacou uma lata de leite condensado, uma lata de creme de leite, uma lata de leite, uma xícara de farinha de trigo, uma xicara de açúcar, três ovos - e apertou o pulsar na velocidade máxima. 

E virou ele mesmo bolo. Só que cru.

Ele não especificou que o copo precisava vir com tampa.

quarta-feira, junho 17, 2020

A mesa roxa

- Estamos aqui reunidos, ao redor desta mesa roxa...

Os sete homens se encararam. Alguns deles se conheciam muito bem; dois deles, o primeiro e o último a chegarem, estavam incrédulos com aquela reunião. Era algo que eles jamais teriam imaginado.

Um deles, um pouco mais deslocado, tirou do bolso o tabaco e o papel e começou a enrolar um cigarro. Ninguém tinha dito que não podia fumar naquela mesa.

Outro, o mais novo de todos, fingia que aquela história não era com ele. Ele não entendia como o sentado à sua esquerda, com os braços tatuados à mostra, tinha sido convidado para estar ali. Mas estava, tanto quanto ele. Como era possível?

O segundo a chegar não queria aparentar, mas estava totalmente envergonhado com aquilo. Ainda, ou já meio bêbado, demonstrava a sua maior façanha: equilibrar um copo sobre a barriga, que escapava da camisa.

O seguinte estava enfurecido. Não tinha sido combinado que ele seria chamado para sentar, achou que ficaria só no cantinho, talvez conversando com a garçonete do bar. Mas quando chegou, lá estava a cadeira com o seu nome marcado.

Enfim, era desconfortável, mas eles já tinham se reunido antes, só não sabiam. Os seus nomes compunham a lista estúpida de um caderno, e agora eles juntavam suas forças por algo maior. A voz prosseguiu:

- Estamos aqui reunidos, ao redor desta mesa roxa, para nos tornarmos uma sanguessuga. A mais forte que jamais existiu. Essa é a nossa única chance de vitória.

Todos se inclinaram para ouvir melhor aquele plano. O segundo derrubou na mesa o copo que apoiava sobre a barriga; o quinto, que nem o conhecia, passou um pano para secar o líquido derramado.

- Mas essa não será uma sanguessuga convencional. Para funcionar, ela terá que agir de dentro para fora. Estará na carne, nadando no músculo, mordendo a parede interna da pele, agindo para trazer para dentro tudo que há de ruim no exterior.

Um pigarro. Seguido por um longo assovio.

- Estamos entendidos quanto ao propósito do animal?

Só um deles compreendeu o funcionamento biológico da coisa; e para imitar o que fumou primeiro e mostrar sua superioridade, ele tirou um maço de cigarro do bolso e ofereceu a todos. Dois aceitaram, e o isqueiro passou entre eles.

- Temos um combinado. Vamos sugá-la até ela morrer.

*

Ela acordou com uma dor na lateral da coxa. Mas nem doía tanto assim.

Ao trocar de roupa, notou um ponto roxo. Sentiu-o um pouco mais quente do que o resto da pele e, com certeza, mais sensível também.

Não lembrava de ter batido a perna em lugar nenhum. Afinal, estava em quarentena e não saía de casa. Devia ter esbarrado em alguma mesa, no braço da cadeira. Numa quina qualquer.

Comparou o hematoma com a altura dos seus móveis: eram todos mais altos ou mais baixos do que o roxo. E a dor seguia ali, perfeitamente redonda, mais escura a cada dia, pulsando... Consumindo a sua paz.

sábado, maio 16, 2020

Olha que situação

Se eu quisesse sair de casa para ver você

Estando convencida

De que o tombo vale a pena

Que compensa a vergonha que nem existe

 

Eu pegaria meu carro

Colocaria mais um pouquinho de gasolina

Encheria os pneus

E pegaria a estrada

 

Quase encostando no guard rail

Pagando pedágio sem parar

Sem tocar o asfalto

Até a sua cidade

 

Nem sei onde você está

Teria que descobrir, dar uma desculpa

Pra parar o carro na frente da sua casa

Sem coragem de descer

 

Porque isso é tudo fantasia

Eu vou sair sem medo de casa

Na verdade, com menos medo do que o normal

Vamos tirar férias

 

Eu quero um tempo do seu lado

Qualquer minuto de diferente

Um lençol amassado

Dois cachorros brigando

 

A certeza de que vou estar no meu de sempre

Cada momento em um lugar

E que vou sempre aceitar

Estar assim de qualquer jeito

 

Só porque uma vez eu olhei para você

Na verdade, a primeira vez

E você sorriu para mim

Do jeito que eu ia querer

Que você fizesse toda vez

domingo, abril 05, 2020

Os vizinhos

Ela sorriu quando encontrou o vizinho no elevador.

- Adorei ouvir o piano hoje. Foi muito bonito.

Ele riu. Quem estava tocando?

- Você, claro. Veio do seu apartamento.

- A que horas? Não é possível, eu estava fora. Deve ter sido algum outro vizinho.

Saem no corredor, boa noite, cada um para sua porta. Ele destranca e recebe um miado: Oi, Tobias.

No dia seguinte, o mesmo acontece. Ele sai às sete da manhã, é médico. Ela senta para tomar café e ouve ele se despedindo do gato, fechando a porta, chamando o elevador, gravando um áudio para um paciente.

Meia hora depois, ela ouve. O piano toca, no início tímido. Alguém puxa o banquinho para perto e fica confortável. A música evolui. Prossegue por mais um tempo entre vários ritmos que ela não consegue identificar. Até as oito e meia, que é seu horário de sair, alguém ainda está tocando piano.

Uma semana depois, ela voltou a encontrá-lo no elevador:

- Diga à pessoa que ela toca piano muito bem. É um prazer ouvir toda manhã.

E ficou vermelha. Ele não sabe que ela toma banho com a porta do banheiro aberta para ouvir o piano, dança com o vestido que vai usar para trabalhar e sorri para a porta fechada enquanto espera o elevador. Não que ela fique ouvindo o que se passa no vizinho (mas ela ouve).

- Eu até diria, mas me desculpe, não tem ninguém tocando piano no meu apartamento. Eu moro sozinho (riso) e não fica ninguém em casa quando eu saio (riso).

Não fica ninguém em casa nem quando ele sai e nem quando ele está, ele poderia ter completado.

- Mas você tem piano em casa, pelo menos?

- Tenho, era da minha avó. Mas não toco.

Ela sai do elevador e empaca no corredor. Decide que não adianta pedir desculpas se parece enxerida.

- Você deixa alguma música quando sai?

- Não, só se foi um engano. Um engano de uma semana, pelo que parece. O que você ouve?

- Eu ouço um piano, claramente alguém praticando no piano. Ouço aqueles exercícios bem básicos, e depois várias músicas, mas não sei quais são.

- Todo dia?

- Todo dia de manhã; depois não sei.

Ele sabe que ela pode ouvir o que se passa no apartamento dele, porque ele também já ouviu algumas coisas na vizinha. Ele ouve saltos toda terça-feira (dia de usar as sandálias mais assassinas que ela tem), ouve o choro depois de desligar o telefone, ouve muita cantoria de pagode, ouve o liquidificador uma vez por mês, para o bolo que ela leva à casa dos pais.

Eles encaram o corredor por alguns segundos e sentem vergonha de insistir na investigação. Que fique por isso mesmo que ela ouve alguém tocando piano no meu apartamento todo dia... Que o piano continue a tocar toda manhã...

Ainda que não tivesse nenhum compromisso cedo na segunda-feira, ele saiu no horário de sempre. Ao invés de pegar o elevador, bateu de leve na porta da vizinha.

- Quero saber de onde vem o piano. Posso esperar um pouco aqui?

Ela engasgou com a colherinha do café e com o miolo de pão. Claro que pode, quer um café?

- Já tomei, mas aceito outro. Só quero entender que piano é esse que tanto toca.

Para disfarçar o absurdo e passar o tempo, o esperado seria que os dois conversassem sobre qualquer assunto; mas estavam em silêncio total, atentos para os ruídos que viriam pelo corredor a qualquer momento. E vieram, da mesma forma de sempre. O começo tímido. O banquinho se arrastando. Os exercícios. A primeira música.

Os dois se olharam. A melhor opção era que ele a chamasse para dançar, ele de jaleco e ela de toalha na cabeça, no ritmo de um animado bolero.

Não foi dessa vez. Ele tirou os sapatos calmamente e abriu a porta com cuidado, ela logo atrás, descalça. Avançaram pelo corredor, a música cada vez mais alta. Meteu a chave na fechadura da porta, tentou abrir com a maior sutileza do mundo.

De costas para ambos, muito animado e alheio à preocupação dos dois...

O gato Tobias tocava piano.