domingo, abril 05, 2020

Os vizinhos

Ela sorriu quando encontrou o vizinho no elevador.

- Adorei ouvir o piano hoje. Foi muito bonito.

Ele riu. Quem estava tocando?

- Você, claro. Veio do seu apartamento.

- A que horas? Não é possível, eu estava fora. Deve ter sido algum outro vizinho.

Saem no corredor, boa noite, cada um para sua porta. Ele destranca e recebe um miado: Oi, Tobias.

No dia seguinte, o mesmo acontece. Ele sai às sete da manhã, é médico. Ela senta para tomar café e ouve ele se despedindo do gato, fechando a porta, chamando o elevador, gravando um áudio para um paciente.

Meia hora depois, ela ouve. O piano toca, no início tímido. Alguém puxa o banquinho para perto e fica confortável. A música evolui. Prossegue por mais um tempo entre vários ritmos que ela não consegue identificar. Até as oito e meia, que é seu horário de sair, alguém ainda está tocando piano.

Uma semana depois, ela voltou a encontrá-lo no elevador:

- Diga à pessoa que ela toca piano muito bem. É um prazer ouvir toda manhã.

E ficou vermelha. Ele não sabe que ela toma banho com a porta do banheiro aberta para ouvir o piano, dança com o vestido que vai usar para trabalhar e sorri para a porta fechada enquanto espera o elevador. Não que ela fique ouvindo o que se passa no vizinho (mas ela ouve).

- Eu até diria, mas me desculpe, não tem ninguém tocando piano no meu apartamento. Eu moro sozinho (riso) e não fica ninguém em casa quando eu saio (riso).

Não fica ninguém em casa nem quando ele sai e nem quando ele está, ele poderia ter completado.

- Mas você tem piano em casa, pelo menos?

- Tenho, era da minha avó. Mas não toco.

Ela sai do elevador e empaca no corredor. Decide que não adianta pedir desculpas se parece enxerida.

- Você deixa alguma música quando sai?

- Não, só se foi um engano. Um engano de uma semana, pelo que parece. O que você ouve?

- Eu ouço um piano, claramente alguém praticando no piano. Ouço aqueles exercícios bem básicos, e depois várias músicas, mas não sei quais são.

- Todo dia?

- Todo dia de manhã; depois não sei.

Ele sabe que ela pode ouvir o que se passa no apartamento dele, porque ele também já ouviu algumas coisas na vizinha. Ele ouve saltos toda terça-feira (dia de usar as sandálias mais assassinas que ela tem), ouve o choro depois de desligar o telefone, ouve muita cantoria de pagode, ouve o liquidificador uma vez por mês, para o bolo que ela leva à casa dos pais.

Eles encaram o corredor por alguns segundos e sentem vergonha de insistir na investigação. Que fique por isso mesmo que ela ouve alguém tocando piano no meu apartamento todo dia... Que o piano continue a tocar toda manhã...

Ainda que não tivesse nenhum compromisso cedo na segunda-feira, ele saiu no horário de sempre. Ao invés de pegar o elevador, bateu de leve na porta da vizinha.

- Quero saber de onde vem o piano. Posso esperar um pouco aqui?

Ela engasgou com a colherinha do café e com o miolo de pão. Claro que pode, quer um café?

- Já tomei, mas aceito outro. Só quero entender que piano é esse que tanto toca.

Para disfarçar o absurdo e passar o tempo, o esperado seria que os dois conversassem sobre qualquer assunto; mas estavam em silêncio total, atentos para os ruídos que viriam pelo corredor a qualquer momento. E vieram, da mesma forma de sempre. O começo tímido. O banquinho se arrastando. Os exercícios. A primeira música.

Os dois se olharam. A melhor opção era que ele a chamasse para dançar, ele de jaleco e ela de toalha na cabeça, no ritmo de um animado bolero.

Não foi dessa vez. Ele tirou os sapatos calmamente e abriu a porta com cuidado, ela logo atrás, descalça. Avançaram pelo corredor, a música cada vez mais alta. Meteu a chave na fechadura da porta, tentou abrir com a maior sutileza do mundo.

De costas para ambos, muito animado e alheio à preocupação dos dois...

O gato Tobias tocava piano.

domingo, março 08, 2020

Identidade

- Você por acaso não é o Luís?

- Sou.

Ou melhor, era. Até aquele momento.

Até aquele segundo, ele era o Luís, ex da Paulinha, que tinha saído com a Carol, que brigou com a Márcia, que beijou o Rodrigo numa festa, que perdeu a virgindade meio sem saber, que tinha planos de viajar para a praia no próximo fim de semana, que fugia do vizinho quando o encontrava na garagem do prédio, que odiava matar pernilongo, que fazia corrida de carrinho de supermercado contra os clientes das outras filas do caixa, que não tinha nenhuma cueca favorita, que inclusive estava sem um puto no bolso, que volta e meia tomava cerveja bem cedo, que não se convencia muito do que tinha escolhido para a vida, que não sabia escrever ‘episódio’ sem conferir no Google, que queria saber tocar guitarra um pouco melhor, que não tinha nem vontade de sair naquela noite, que volta e meia decidia sumir por uns dias e dizia que isso não era depressão, que perdia meia atrás de meia e tinha uma porção de peças desencontradas numa gaveta da lavanderia, que planejava chamar a Amanda para sair na terça-feira, que não tinha tempo ruim para fazer sexo se estivesse a fim, que punha raspas de limão em quase tudo, que odiava dormir no escuro e vivia atrás de uma nova banda favorita, que tinha um dedo mindinho secretamente muito menor do que o outro, que enfrentava qualquer coisa bêbado, que invejava quem ficava bem de camisa listrada, e que até aquele instante não conhecia a Teresa.

- Prazer. Eu sou a Teresa.

Retroapaixonada

Como posso escrever sobre o que eu gostaria de sentir, se não posso compartilhar esse sentimento com ninguém?

No fundo do meu coração partido, essa vontade surgiu quando eu estava inconsciente. Foi uma confidência num momento de fraqueza, da qual eu já me arrependi, que eu prometi que não ia acontecer mais. Mas eu estou sem força de fazer qualquer outra coisa, e pior, estou com apetite de fazer isso de novo.

Fecho os olhos e vejo você. Debaixo dos lençóis, sob os travesseiros, dentro das gavetas, atrás do colchão. Minha imaginação não se compara com a pilha de bagunças das suas lembranças. Você foi alguém que me fez comer na sua mão, e agora que estou despedaçada, só queria que você me apertasse de novo.

Só não me arrasto para você porque não tenho nenhum resto de dignidade em mim; fico na esperança de um contato telepático, uma coincidência qualquer. Algo que me devolva com o rabo entre as pernas sem que eu precise de qualquer explicação - porque, na minha cabeça, você sempre vai me querer também.

Faixas transversais

Vinícius cruzou a rua sem olhar. De repente encontrou, num instante muito rápido, a pessoa que vinha em sua direção.

Era Fabiana. Fabi, Fofinha, a falsidade em pessoa, o fim da felicidade de seu falo quando finalmente filou, em plenas férias em Florianópolis, a fugaz foda que tanto faria falta mais pra frente.

Depois daquela noite maravilhosa, quando todas as estrelas se alinharam na pousada de frente para o mar e proporcionaram a melhor química do mundo, nenhum dos dois tinha trocado uma única palavra.

Agora ela estava ali, a três linhas de distância na faixa de pedestres, se aproximando da gosma derretida que ele virou.

Quando Fabi o percebeu, parou. Fincou os pés com tanta força no asfalto que estragou o conserto malfeito do buraco recém-tapado. Abriu-se a cratera que estava ali semana passada, dentro da qual ela caiu.

Vinícius, apenas gosma derretida, tremia em sua consistência. Pouco a pouco escorreu para as profundezas daquele buraco na faixa de pedestres.

Na escuridão subterrânea da cidade, pontilhada pelas luzes que ultrapassavam os bueiros, os dois poderiam, com mais privacidade, se encontrar enfim, para o que quer que fosse, depois de tanto tempo separados. Até aquele momento Vinícius e Fabi se imaginavam muito longe um do outro, ainda que todo dia seus caminhos se cruzassem, sem saber, ao atravessar aquela mesma faixa de pedestres.

terça-feira, dezembro 31, 2019

Mãos ao alto

Estou guardando uma lesão no polegar direito. É uma dor de segurar qualquer coisa, um lápis, mouse, escova de cabelo. Se a mão está em repouso, aberta, tudo bem. Qualquer movimento e eu agarro a dor no ar, sem falta.

Eu sei que tem sim algo trincado nos ossinhos, algo que não vai se arrumar sem a devida imobilização. Já decidi que quando eu precisar de descanso, quando não der conta nem de pedir as contas, vou fugir para o pronto-socorro no horário de pico com o laptop debaixo do braço. O tempo de espera para ser atendida e examinada servirá para me trazer paz.

De repente, quando achei que a vida tinha se tornado realmente intolerável, e a necessidade de aguardar o atendimento seria impossível de ignorar, a dor pulou de uma mão para a outra. Da destra necessária, imprescindível, fugiu para a canhota inútil, boba. E agora?

Engessar a outra mão não funciona como desculpa para abdicar do dia a dia profissional, e deve me prejudicar apenas 50% em âmbito privado: lavar o cabelo, usar talheres, dirigir, perderei a independência sem perder a utilidade. E os meus chefes com isso? Contanto que a minha mão apta esteja disponível, pode vir só ela mesma, serrada na altura do pulso, para discar o telefone, copiar um documento, arrumar as gavetas. Todo o resto em dor, quebrado, destruído, não importa; basta que a ferramenta de trabalho tenha vontade de corresponder ao script combinado.