Vanessa estava na época de não saber o que queria, se desejava uma ilha deserta ou as fricções múltiplas de uma balada. Tanta coisa passava por sua cabeça e seu marido insistiu em marcar um cinema com muita antecedência, mantendo-a presa àqueles planos sobre os quais não tinha sido consultada.
Já muito antes da sessão, Fábio estava em histeria. Como seriam aquelas três horas de filme, se ele não tinha conseguido lugar nas poltronas de casal do cinema ultra super mega VIP? Para ela tanto fazia se não se sentaria do lado dele, a distância durante a sessão era uma alívio diante do compromisso matrimonial. Fábio insistia em criar estratégias para mover todos os espectadores da sala, garantindo que ele e sua esposa se sentassem juntos, grudados, inseparáveis. Vanessa não dava a mínima e se irritava com a insistência dele.
Ao chegarem à poltrona indicada em seu ingresso, Vanessa fez questão de confirmar: esse lugar é o meu, certo? Fábio confirmou em seco. A poltrona dela fazia par com um gostosão que pelo amor de Deus. Tão bonito que ela ficou envergonhada de olhar, já que ficaria à sua esquerda, sem nenhum obstáculo físico, apenas moral, por três horas. Ela pediu licença para sentar (na poltrona ao lado, não no colo dele) e tentou disfarçar sua satisfação com o que o destino lhe proporcionava.
Seu marido foi para seu lugar na fileira de trás, a dividir a namoradeira com um barbudo mal encarado, mas não largou o osso. Aos cinco minutos de trailer, veio anunciar todo cheio de si ao vizinho gostosão de Vanessa que ESSA MOÇA AQUI É A MINHA ESPOSA e ele GOSTARIA MUITO DE SENTAR DO LADO DELA NO FILME. Será que o gostosão poderia se mudar para sentar com o barbudo mal encarado? Ela quis dizer que não havia necessidade de nada disso, mas o próprio gostosão soube se defender com classe.
Segundo o gostosão, o moço na poltrona à sua direita, de quem ele estava separado por uma mesinha e um abajur, era o seu namorado. Infelizmente, ele não pretendia sair do lado dele para satisfazer outro casal.
Fábio tentou disfarçar a surpresa e saiu com o rabinho entre as pernas. Depois de ouvir a justificativa do gostosão, Vanessa quis confirmar o que tinha acabado de escutar. Sim, eles eram namorados. Ela enfim sugeriu, com delicadeza, que poderia trocar de lugar com o moço à direita para que ele e o gostosão pudessem assistir ao filme juntos. Sem forçar a barra ou esperar nada de ninguém.
O gostosão ficou ultra super mega agradecido com a proposta de dividir a namoradeira com quem realmente lhe interessava. Vanessa pegou sua bolsa e se aconchegou em sua nova poltrona, sozinha no canto da fileira. Ainda bem que a inconveniência de seu marido abriu espaço para a conveniência dos outros.
segunda-feira, abril 29, 2019
quarta-feira, abril 03, 2019
O devasso
Senti uma mão em minha coxa. O bafo quente e úmido na nuca. O gesto atrevido em pleno trem lotado decidiu me fazer de alvo passageiro, num desejo incontrolável. Por um segundo, ter entre os dedos aquilo de que o coração precisa.
Decidi corresponder àquele movimento vulgar. Deslizei minha mão para dentro do bolso ocupado, na ânsia de encostar na pele quente que me apertava. Precisava sentir aquela luxúria, aquela vontade iminente e furtiva entre o amontoado de pessoas dentro do vagão.
Nos tocamos e ele retesou a mão. Recolheu-se no mesmo instante da descoberta, já não mais um ato despercebido. Quis aparentar naturalidade, mas a rapidez com que virou o rosto denunciou sua intenção de fazer-me o mal. Falei bem próximo, ainda equilibrado:
- Você enfiou a mão na minha calça para me roubar.
Ele disse que não tinha feito nada daquilo.
- Eu senti sua mão no meu bolso tentando pegar meu celular.
Ele quis desconversar e desmentir a acusação.
- Eu e você sabemos o que você fez. Você quis pegar meu celular achando que eu não ia perceber. Eu percebi.
Ele insistiu em se fazer de inocente. O trem parou na estação e quem tentava acompanhar o episódio teve que se espremer para descer ou dar espaço ao público que embarcava. Puxei o ar para a ameaça final:
- Se você não descer desse trem agora, eu te arrebento na porrada.
Ele insistiu que estava quieto na dele e ali ficaria.
- Eu não estou a fim de brigar, é melhor você sair. Se você continuar aqui eu vou te dar um pau.
Segurei a porta com o pé e dei mais uma chance.
- O pessoal aqui também vai te bater quando souber o que você fez. Desce agora.
Ele escolheu sair no último segundo. Soltei a porta e todo o resto do vagão soltou a respiração. Estávamos distantes enfim. Eu não sofreria mais sua apalpação indevida; ele perdeu o butim e escapou das consequências. Não sofreria ali minha punição dura para sua safadeza com o corpo alheio.
Decidi corresponder àquele movimento vulgar. Deslizei minha mão para dentro do bolso ocupado, na ânsia de encostar na pele quente que me apertava. Precisava sentir aquela luxúria, aquela vontade iminente e furtiva entre o amontoado de pessoas dentro do vagão.
Nos tocamos e ele retesou a mão. Recolheu-se no mesmo instante da descoberta, já não mais um ato despercebido. Quis aparentar naturalidade, mas a rapidez com que virou o rosto denunciou sua intenção de fazer-me o mal. Falei bem próximo, ainda equilibrado:
- Você enfiou a mão na minha calça para me roubar.
Ele disse que não tinha feito nada daquilo.
- Eu senti sua mão no meu bolso tentando pegar meu celular.
Ele quis desconversar e desmentir a acusação.
- Eu e você sabemos o que você fez. Você quis pegar meu celular achando que eu não ia perceber. Eu percebi.
Ele insistiu em se fazer de inocente. O trem parou na estação e quem tentava acompanhar o episódio teve que se espremer para descer ou dar espaço ao público que embarcava. Puxei o ar para a ameaça final:
- Se você não descer desse trem agora, eu te arrebento na porrada.
Ele insistiu que estava quieto na dele e ali ficaria.
- Eu não estou a fim de brigar, é melhor você sair. Se você continuar aqui eu vou te dar um pau.
Segurei a porta com o pé e dei mais uma chance.
- O pessoal aqui também vai te bater quando souber o que você fez. Desce agora.
Ele escolheu sair no último segundo. Soltei a porta e todo o resto do vagão soltou a respiração. Estávamos distantes enfim. Eu não sofreria mais sua apalpação indevida; ele perdeu o butim e escapou das consequências. Não sofreria ali minha punição dura para sua safadeza com o corpo alheio.
quinta-feira, fevereiro 28, 2019
MS - 1
Ela ainda saía com vários caras por mês, uma ou duas vezes com cada um, e recebia aqui e ali alguns mimos; relações amadoras, nada financeiramente significativo, que não chegavam nem perto de bancá-la ou diverti-la. Anos de faculdade, cursava Jornalismo aos trancos e barrancos, sem a mínima disposição de um dia se formar e ter que procurar por empregos de verdade. Sobrevivia bem com a mesada do pai enviada do interior do Estado.
Até que conheceu o Marcelo. Foi apresentada como namorada de seu filho, Thiago, um de seus clientes mais novinhos. Ele sacou na hora qual era o envolvimento ali, e ela percebeu sua atenção. Louro, alto, bastante forte, ela não conseguia desviar do pai durante o jantar de aniversário do filho. Que ombros eram aqueles? Ele também demonstrou seu interesse nela, de um jeito muito discreto. Era absolutamente maravilhoso.
Entre um prato e outro, ela comentou sobre as fazendas de sua família, e mencionou questões trabalhistas que frequentemente requeriam um advogado. Marcelo, muito solícito, serviu mais vinho em sua taça e passou seu cartão pedindo que entrassem em contato quando fosse necessário. Seu escritório, segundo ele, possuía grande experiência na área. Ela sorriu e agradeceu.
Uma semana depois o namoro de fachada acabou, o pagamento final caiu em sua conta bancária e ela foi em busca de um vestido novo para impressionar Marcelo; pensava em sair com ele nos próximos dias. Passeando pelo shopping, olhava a vitrine de uma loja chique, onde as vendedoras eram suas amigas, quando reconheceu Alice, a esposa de Marcelo. Preferiu ser discreta e escolher uma estampa de outra grife.
Até que conheceu o Marcelo. Foi apresentada como namorada de seu filho, Thiago, um de seus clientes mais novinhos. Ele sacou na hora qual era o envolvimento ali, e ela percebeu sua atenção. Louro, alto, bastante forte, ela não conseguia desviar do pai durante o jantar de aniversário do filho. Que ombros eram aqueles? Ele também demonstrou seu interesse nela, de um jeito muito discreto. Era absolutamente maravilhoso.
Entre um prato e outro, ela comentou sobre as fazendas de sua família, e mencionou questões trabalhistas que frequentemente requeriam um advogado. Marcelo, muito solícito, serviu mais vinho em sua taça e passou seu cartão pedindo que entrassem em contato quando fosse necessário. Seu escritório, segundo ele, possuía grande experiência na área. Ela sorriu e agradeceu.
Uma semana depois o namoro de fachada acabou, o pagamento final caiu em sua conta bancária e ela foi em busca de um vestido novo para impressionar Marcelo; pensava em sair com ele nos próximos dias. Passeando pelo shopping, olhava a vitrine de uma loja chique, onde as vendedoras eram suas amigas, quando reconheceu Alice, a esposa de Marcelo. Preferiu ser discreta e escolher uma estampa de outra grife.
quarta-feira, janeiro 30, 2019
A lagartixa
Eu estava tomando banho de porta aberta, a última coisa a fazer antes de dormir. Ao passar o shampoo no cabelo, levantei os olhos e vi alguém andando em cima da porta.
Um rostinho escuro, correndo frio. Uma lagartixa.
Ela percebeu que eu a notei. Parou na beirada da porta e encarou as toalhas penduradas na parede oposta. Calculava um pulo de fuga e engoliu seco ao ver que não teria sucesso. De vez em quando espiava a minha paralisia, só pensando: o que faço agora? Eu pensava a mesma coisa.
Terminei meu banho aos poucos. Para disfarçar, ela mudou de tática e decidiu me encarar fixamente. Não quis perder a pose de quem está no alto, mas já tinha consciência da minha intenção de despejá-la. Devagar, saí do box do chuveiro atenta a cada movimento, uma faca que ela pode puxar de dentro do casaco, uma arma na bolsa. Fui para o quarto sem tirar os olhos dela, que se mexeu para deixar um bracinho e uma perninha à vista, quase na dobradiça da porta. Vi as pontinhas pretas dos dedos, manicure escura.
Liguei duas vezes para a minha mãe e não fui atendida. Tentei encarar dignamente o fardo que se apresentava: busquei na lavanderia um rodo e uma vassoura, onde eu esperava equilibrar a lagartixa para transportá-la até a varanda.
Eu entrei no banheiro, de vassoura em punho, e aconteceu o inacreditável.
A lagartixa olhou para mim.
Um olhar de deboche, de desprezo a disfarçar. Eu baixei a guarda na mesma hora.
Depois de alguns minutos tentando recuperar a moral abalada, decidi pegar também uma pá para acomodá-la melhor – caso eu ao menos conseguisse encostar a vassoura nela. Concentrando-me na estrita necessidade de ter paz para dormir, ergui os objetos, e meu coração deu um pulo no peito.
O barulho do celular cortou todo o meu ímpeto. Finalmente minha mãe se dignou a retornar as chamadas não atendidas. Eu contei a história falando baixo, para a lagartixa não ouvir como eu me sentia indefesa. Recebi o pífio conselho de fechar a porta do banheiro e me contentar com uma toalha protegendo o batente inferior.
Indignada, comecei a bater boca pela sugestão pouco útil, o clima esquentou, a lagartixa tentou virar o corpo para escutar melhor que planos eu arquitetava. Ela passou a cabeça por cima da porta, esticou o pescoço fininho, me olhou satisfeita com o clima de desespero que tomava conta do quarto. Só não contava com a madeira escorregadia pelo vapor do banho, e plaf no chão. Eu gritei ao telefone e causei em minha mãe um ataque de risos.
Agora sim decidi chamar minha avó, que tinha ido dormir há pouco tempo. Ela trouxe a tática do saco: colocar o animal num saco plástico, sabe-se lá como, e jogar o saco na varanda. Quando entramos no banheiro para capturá-la, nada da lagartixa. Sumiu.
Eu já estava enfurecida com a audácia. Encontrei-a embaixo da pia, covarde, na quina do azulejo, traída pelos olhos escuros bem abertos. Na base dos cutucões com o rodo e aos gritos, ela foi para dentro do box molhado. Dali não conseguia escalar paredes, só correr meio tonta para lá e para cá.
Minha avó assumiu e em poucos segundos fez a lagartixa entrar no saco. Ergueu o plástico contra a luz e pude ver o corpinho preso.
Depois disso, não posso deixar de mencionar que ainda insisti em discutir sobre o despejo da lagartixa. Eu fazia questão de levar o saco para fora e quis tomá-lo da minha avó a todo custo. Ela não demorou a me entregar a prisioneira ensacada, doida para fugir, e, antes de ir para o quarto, disparou: agora come essa lagartixa!
Um rostinho escuro, correndo frio. Uma lagartixa.
Ela percebeu que eu a notei. Parou na beirada da porta e encarou as toalhas penduradas na parede oposta. Calculava um pulo de fuga e engoliu seco ao ver que não teria sucesso. De vez em quando espiava a minha paralisia, só pensando: o que faço agora? Eu pensava a mesma coisa.
Terminei meu banho aos poucos. Para disfarçar, ela mudou de tática e decidiu me encarar fixamente. Não quis perder a pose de quem está no alto, mas já tinha consciência da minha intenção de despejá-la. Devagar, saí do box do chuveiro atenta a cada movimento, uma faca que ela pode puxar de dentro do casaco, uma arma na bolsa. Fui para o quarto sem tirar os olhos dela, que se mexeu para deixar um bracinho e uma perninha à vista, quase na dobradiça da porta. Vi as pontinhas pretas dos dedos, manicure escura.
Liguei duas vezes para a minha mãe e não fui atendida. Tentei encarar dignamente o fardo que se apresentava: busquei na lavanderia um rodo e uma vassoura, onde eu esperava equilibrar a lagartixa para transportá-la até a varanda.
Eu entrei no banheiro, de vassoura em punho, e aconteceu o inacreditável.
A lagartixa olhou para mim.
Um olhar de deboche, de desprezo a disfarçar. Eu baixei a guarda na mesma hora.
Depois de alguns minutos tentando recuperar a moral abalada, decidi pegar também uma pá para acomodá-la melhor – caso eu ao menos conseguisse encostar a vassoura nela. Concentrando-me na estrita necessidade de ter paz para dormir, ergui os objetos, e meu coração deu um pulo no peito.
O barulho do celular cortou todo o meu ímpeto. Finalmente minha mãe se dignou a retornar as chamadas não atendidas. Eu contei a história falando baixo, para a lagartixa não ouvir como eu me sentia indefesa. Recebi o pífio conselho de fechar a porta do banheiro e me contentar com uma toalha protegendo o batente inferior.
Indignada, comecei a bater boca pela sugestão pouco útil, o clima esquentou, a lagartixa tentou virar o corpo para escutar melhor que planos eu arquitetava. Ela passou a cabeça por cima da porta, esticou o pescoço fininho, me olhou satisfeita com o clima de desespero que tomava conta do quarto. Só não contava com a madeira escorregadia pelo vapor do banho, e plaf no chão. Eu gritei ao telefone e causei em minha mãe um ataque de risos.
Agora sim decidi chamar minha avó, que tinha ido dormir há pouco tempo. Ela trouxe a tática do saco: colocar o animal num saco plástico, sabe-se lá como, e jogar o saco na varanda. Quando entramos no banheiro para capturá-la, nada da lagartixa. Sumiu.
Eu já estava enfurecida com a audácia. Encontrei-a embaixo da pia, covarde, na quina do azulejo, traída pelos olhos escuros bem abertos. Na base dos cutucões com o rodo e aos gritos, ela foi para dentro do box molhado. Dali não conseguia escalar paredes, só correr meio tonta para lá e para cá.
Minha avó assumiu e em poucos segundos fez a lagartixa entrar no saco. Ergueu o plástico contra a luz e pude ver o corpinho preso.
Depois disso, não posso deixar de mencionar que ainda insisti em discutir sobre o despejo da lagartixa. Eu fazia questão de levar o saco para fora e quis tomá-lo da minha avó a todo custo. Ela não demorou a me entregar a prisioneira ensacada, doida para fugir, e, antes de ir para o quarto, disparou: agora come essa lagartixa!
terça-feira, janeiro 01, 2019
As oito metas de 2018
Há mais ou menos doze meses eu marquei na primeira página da
minha agenda oito metas simples, pensadas para o ano que viria. Nunca tinha
feito isso, e em pouco tempo criei objetivos próximos do possível para mim –
não queria malabarismos, queria coisas para o meu bem. 2017 havia sido o
primeiro ano em que eu assumi o compromisso de tratar a minha depressão
seriamente, com terapia, remédios e exercícios, e a partir dessa decisão várias
coisas boas puderam surgir. Houve momentos em que eu quebrei a cabeça para
pensar um rumo mais interessante para o meu futuro - o que eu era incapaz de
fazer até então - e era a hora de colocar isso no papel para o ano seguinte. Ao
final desse período, revisito essas metas, elencadas como na minha agenda, em
nenhuma ordem especial:
1) Concluir o curso de Relações Internacionais (3 matérias +
TCC): minha história com essa graduação se arrastava desde o início de 2013 e
eu estava cada vez mais infeliz com o curso. Nada parecia dar certo e cada
resultado negativo que eu acumulava era mais um estímulo para eu desistir de
vez. Até o meio de 2017, quando eu botei na minha cabeça que me formar em RI
era indispensável para a minha próxima meta, eu não tinha nenhuma ideia de
quando ou como poderia me graduar. Faltava tão pouco, eu estava quase na praia,
mas não tinha vontade de nadar. Em 2018 me esforcei loucamente, passei nas três
únicas matérias que faltavam (entre elas Cálculo e Estatística, que me
apavoravam desde o primeiro ano) e entreguei meu trabalho de conclusão de curso
(no forno desde 2015). A colação de grau, algo que eu nem sonhava, será em
março.
2) Voltar a estudar Jornalismo: seguir somente com RI era algo
que me deixava muito insatisfeita porque eu não sentia naquilo uma paixão. É um
campo que eu aprendi a amar e respeitar, mas não me bastava. Sentia a falta de
um complemento para o que eu aprendia, um modo de colocar em prática tudo que
eu estudava. Decidi correr atrás do ano de Jornalismo que eu já tinha feito lá
longe, em 2013, e trancado por não aguentar fazer duas graduações ao mesmo
tempo. Com mais planejamento e determinação, prestei o vestibular para reaver a
minha vaga e me matriculei no segundo ano da graduação. Terminei os dois
semestres sem grandes loucuras nem arrancar os cabelos, muito mais tranquila
com a escolha que fiz.
3) Melhorar a minha alimentação: eu precisava não de uma
reeducação alimentar, mas de uma educação desde o nível mais básico – eu não comia
quase nada. Sem a ajuda de uma nutricionista, muito dificilmente teria
alcançado alguma melhora sozinha. Aprendi novos sabores, texturas e pratos, e
isso extrapolou o que eu esperava. Infelizmente, com a lesão que tive em abril,
da qual falo mais na próxima meta, perdi o tesão em me alimentar de maneira
melhor e mais regrada por um tempo. O lado bom é que essa semente já foi
plantada em mim, e sem dúvidas quero voltar a ter esse empenho.
4) Fazer exercícios físicos regularmente: até abril estava
tudo uma maravilha. Eu corria que era uma beleza, tinha pique, ânimo e bons
resultados. Quando me machuquei, entrei em parafuso e fiquei em pânico com a possibilidade
de ter ferrado de vez meu tornozelo – de novo, de novo e de novo. Cada mínima
pontada de dor me deixava mais para baixo e eu escolhi o sedentarismo por medo
e comodidade. Demorei para marcar a fisioterapia, e muito mais para readquirir
confiança em mim – e no meu pé, meio fraquinho, mas ainda o meu pé.
5) Continuar com os remédios e a terapia: não são baratos ou
fáceis. Não é só engolir toda noite um comprimido que aparece magicamente na
minha gaveta ou chegar em tempo para uma sessão de uma hora toda semana. Quando
percebi que comecei a melhorar substancialmente com essas duas coisas, levantei
uma resistência na minha cabeça. Um medo da dependência, não queria admitir que
isso funcionasse. Consegui grandes progressos e, por mais que às vezes bata uma
dúvida ou outra, não pretendo parar.
6) Voltar a estudar alguma língua estrangeira: essa foi uma
promessa bastante otimista. Não sabia que eu realmente não teria como me
dedicar a nada além das faculdades e do TCC esse ano. Tudo bem, não desisti,
apenas adiei essa meta.
7) Arranjar um bom estágio no segundo semestre: novamente, eu
achava que teria mais tempo e que não teria problema em acumular várias tarefas.
Até fui chamada para uma vaga muito legal no fim do primeiro semestre, mas tive
que recusar - depois vi que foi bom não ter aceitado. Quando escrevi essa meta, não imaginava que no
último mês do ano conseguiria a vaga de estágio dos meus sonhos para o ano
seguinte. De forma inesperada, consegui cumprir com o que eu tinha planejado.
8) Ler 30 livros em 12 meses: há alguns anos eu já não lia
como antes. Primeiro pensei em dois livros por mês, nada de outro mundo para os
meus hábitos passados. Aumentei a contagem em seis para arredondar o número
final. Infelizmente empaquei em vários livros chatos (comecei, desisti,
abandonei) e tive muitas coisas para ler em ambas as faculdades. Terminei o ano
com 17 livros lidos, e pela primeira vez anotei o nome de todos.
Outras coisas interessantes (para mim, pelo menos) que eu
consegui em 2018: cortei meu cabelo bem curto e aprendi a fazer minhas próprias
unhas. São coisas que parecem simples, mas que impactaram muito a minha imagem
e autonomia nesse ano.
Para o próximo ano, já pensei nas minhas metas, e vou
escrevê-las na minha agenda assim que postar esse texto. Mantive três das que
fiz para o ano passado, pensei em três bastante desafiadoras (mexem com medos e
incertezas) e coloquei também duas relativamente bem bobinhas, para ter a
certeza de segui-las. Mal posso acreditar que esse ano vai começar, e não tenho
ideia do que vou encontrar no caminho. Quero olhar de longe com um pensamento
otimista, tão diferente do meu mau humor de sempre, para que eu não me deixe cair
de novo, sem forças para levantar, no poço sem fundo que eu já conheci.
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