Tenha um dia cheíssimo na escola (nas entrelinhas: ria até não poder mais);
Saia do colégio tarde;
Vá para casa;
Mas seja obrigada ir comprar peixes com o papai;
Fique gostando dos ratinhos da Mongólia na pet shop;
Leve apenas alguns neons assustados;
Entre no carro;
Perceba que o carro não funciona;
Sorria;
Empurre o simpático Fusca sozinha.
quinta-feira, maio 14, 2009
sábado, maio 09, 2009
Fique de boa na sua lagoa
Vá pra escola às sete da manhã no sábado;
Volte pra casa ao meio dia;
Capote na cama;
Levante às três da tarde;
Vista a camisa do seu time de coração;
Fique em casa sozinha, meio morrendo de fome;
Abra a janela e respire o ar pouco pura lá de fora;
Ligue o computador;
Encontre on line um certo alguém.
Volte pra casa ao meio dia;
Capote na cama;
Levante às três da tarde;
Vista a camisa do seu time de coração;
Fique em casa sozinha, meio morrendo de fome;
Abra a janela e respire o ar pouco pura lá de fora;
Ligue o computador;
Encontre on line um certo alguém.
quarta-feira, abril 29, 2009
Prova de Redação - 14/04/09 - Nota: 6,7
A moça morava perto de um antigo cemitério, no Rio de Janeiro. E quem morava por ali tinha conhecimento da morte, pois toda hora um enterro passava. Observá–los era para ela uma diversão.
Para a moça não interessava a exuberante natureza da cidade, não importava o mar espumante que lambia a areia, próximo à sua casa. Sentia–se em paz quando deslizava pelas ruazinhas brancas, mergulhada em seus pensamentos, sem se importar com ar tétrico que emanava do chão. Olhava uma inscrição aqui, descobria uma figura de anjinho ali, olhava retratos apagados pelo tempo, fazia conta da idade dos mortos. Às vezes, subia o morro, onde estava a parte nova do cemitério, e os túmulos mais modestos.
Não se importava com os muitas vezes maldosos comentários da vizinhança idosa naquele quarteirão. Em sua liberdade modesta, aproveitava o tempo principalmente navegando pelos rumos da morte.
Era realizado um velório, no horário de almoço daquela tarde. Ela já pensava salivando em seu macarrão mal cozido e sem molho, contudo ficou, pois a presença apenas de mulheres, aparentemente novas como ela, carregando solitários girassóis, a intrigou. Vestidos negros eram arrastados no chão, nenhuma lágrima caía; uma legião de amantes que o homem colecionara?
Quando o caixão finalmente desceu, elas deixaram em volta do jazigo sem inscrição alguma todos aqueles girassóis. De tão amontoados, um rolou por sobre os outros, ficando sozinho na grama. A moça o recolheu, e dedilhando suas pétalas, caminhou para casa.
Sete horas da manhã. A hora de levantar para caminhar até seu simples trabalho como caixa em um mercado do bairro. Mas ao invés de acordar nada delicadamente com o despertador, abriu os olhos e leu no rádio–relógio: 6:59AM.
Virou–se de barriga para cima e encarando o teto aguardou um minuto. Porém, foi o telefone que lhe tirou a preguiça. Ele estava no criado–mudo junto ao girassol, e quando ela o atendeu, a flor caiu ao chão.
–Peço perdão, senhorita gentil, mas precisa–me devolver a flor. Nada de mais, apenas uma formalidade, porém imprescindível. Imploro–lhe este ultimo ato de bondade, querida!
Tão logo ela atendeu, tão logo desligou. Ora, que diabo de irmão ela tinha! Brincadeiras tão tolas logo pela manhã! Nunca usava a razão. Ela não perdoava o fato de ele estar na sua inicial juventude; esperava dele alguma noção do perigo em que se metera tentando assustar a irmã.
Em sua visita ao cemitério naquela tarde, quando a noite já se fundia ao dia, ela notou que os girassóis continuavam tão vivos quanto no dia anterior, apesar de não terem sido regados ou trocados. Tão bela, a morte que às vezes não quer nos levar...
Não tocou no assunto com seu irmão durante o jantar; aliás, mal tocou na comida. Um forte enjôo a atingiu e ela nem cogitou comer. Logo estava em seu quarto, brincando com o brilhante girassol que tinha guardado na gaveta do criado–mudo. Cheirava–o, mas ele não tinha um aroma conhecido, tinha o cheiro do passado. Enquanto refletia sobre isso e sobre a novela que esquecera de assistir, enroscou–se nas cobertas e em seguida adormeceu.
A contragosto, abriu um olho já se sentindo atrasada. Lembrava–se muito bem do aviso do gerente: “A pontualidade é a maior virtude que se pode praticar, principalmente dentro deste estabelecimento. Mais do que isso, nosso slogan e blábláblá...”.
Com raiva agarrou o preguiçoso rádio–relógio, esbarrando no girassol e fazendo–o cair no chão.
Os números brilhavam azuis: 6:59AM.
E o telefone tocou.
–A flor, te lembras? Envergonho–me de tal insistência, mas necessito dela, por favor! Se pudesse me entender, talvez você...
A moça puxou o foi da tomada. Nenhuma ligação a acordaria antes da hora no dia seguinte, pois elas não seriam recebidas. Simples assim.
Ela passou o dia nervosa. Piorou quando teve que trocar o encontro relaxante com os mortos por uma visita à avó doente no hospital. Tão entubada e quieta que a vida parecia apenas um termo médico. A moça não via razão para manter a em outros tempos tão alegre vovó naquela prisão de vida e de morte.
Ao colocar o pijama naquela fria noite, verificou mais uma vez se o telefone estava desligado. Sim, estava. Por via das dúvidas, colocou–o também em cima do armário. Apenas por precaução, claro.
Ela não costumava ter pesadelos, só quando repetia a buchada que sua mãe fazia no jantar, porém chegou a suar frio naquela noite. Por acordar durante a estranha perseguição da qual fugiu, não se lembrava de nada. Apenas arfava e sentia o coração a mil.
O telefone tocou,
A moça, tão estupefata, esperou o segundo toque para pular da cama e alcançar o telefone, que ainda repousava sobre o armário.
–Rápido, moça! Respeito sua, hm, lentidão, porém não posso mais suportar! Acorde para si mesma! Deixe de se esconder e...
Ela gritou do fundo de seu coração e desligou o telefone. Tremendo, agachou–se rente à parede e como uma criança enterrou a face nas mãos.
O girassol, tão intenso quanto no dia em que ela o recolhera, a encarava do tapete. Na penumbra, a flor brilhava tanto que parecia que o verdadeiro sol vinha dela.
Vestiu rápido um roupão e delicadamente abriu a porta: atravessaria a rua e deixaria o girassol sobre o túmulo. Era essa a única saída.
Alheia a duas senhoras apontado e fofocando sobre ela, empurrou o pesado portão e caminhou pelas ruazinhas. Encontrou o túmulo tão morto como antes, coberto pelos mesmos girassóis. Infelizmente, a moça não notou o quanto pareciam mais... mortos.
Sentou–se e acariciou a pedra fria. Estava em paz, sozinha. Fechou os olhos. Relaxou o corpo e deixou o girassol cair da mão esquerda.
Uma voz entrou por seu ouvido e uma mão pousou sobre seu ombro: era ele, Carlos, seu namorado que ela não via há muitos anos.
–Até que enfim você veio, minha flor.
Carlos, há tempos havia sido dado como morto. Porém não mais para ela.
A moça o abraçou e o beijou, enquanto uma brisa levou para longe todos os girassóis.
Partindo do início e fim de uma narrativa de Carlos Drummond de Andrade, elabore o conto seguindo orientações...
Para a moça não interessava a exuberante natureza da cidade, não importava o mar espumante que lambia a areia, próximo à sua casa. Sentia–se em paz quando deslizava pelas ruazinhas brancas, mergulhada em seus pensamentos, sem se importar com ar tétrico que emanava do chão. Olhava uma inscrição aqui, descobria uma figura de anjinho ali, olhava retratos apagados pelo tempo, fazia conta da idade dos mortos. Às vezes, subia o morro, onde estava a parte nova do cemitério, e os túmulos mais modestos.
Não se importava com os muitas vezes maldosos comentários da vizinhança idosa naquele quarteirão. Em sua liberdade modesta, aproveitava o tempo principalmente navegando pelos rumos da morte.
Era realizado um velório, no horário de almoço daquela tarde. Ela já pensava salivando em seu macarrão mal cozido e sem molho, contudo ficou, pois a presença apenas de mulheres, aparentemente novas como ela, carregando solitários girassóis, a intrigou. Vestidos negros eram arrastados no chão, nenhuma lágrima caía; uma legião de amantes que o homem colecionara?
Quando o caixão finalmente desceu, elas deixaram em volta do jazigo sem inscrição alguma todos aqueles girassóis. De tão amontoados, um rolou por sobre os outros, ficando sozinho na grama. A moça o recolheu, e dedilhando suas pétalas, caminhou para casa.
Sete horas da manhã. A hora de levantar para caminhar até seu simples trabalho como caixa em um mercado do bairro. Mas ao invés de acordar nada delicadamente com o despertador, abriu os olhos e leu no rádio–relógio: 6:59AM.
Virou–se de barriga para cima e encarando o teto aguardou um minuto. Porém, foi o telefone que lhe tirou a preguiça. Ele estava no criado–mudo junto ao girassol, e quando ela o atendeu, a flor caiu ao chão.
–Peço perdão, senhorita gentil, mas precisa–me devolver a flor. Nada de mais, apenas uma formalidade, porém imprescindível. Imploro–lhe este ultimo ato de bondade, querida!
Tão logo ela atendeu, tão logo desligou. Ora, que diabo de irmão ela tinha! Brincadeiras tão tolas logo pela manhã! Nunca usava a razão. Ela não perdoava o fato de ele estar na sua inicial juventude; esperava dele alguma noção do perigo em que se metera tentando assustar a irmã.
Em sua visita ao cemitério naquela tarde, quando a noite já se fundia ao dia, ela notou que os girassóis continuavam tão vivos quanto no dia anterior, apesar de não terem sido regados ou trocados. Tão bela, a morte que às vezes não quer nos levar...
Não tocou no assunto com seu irmão durante o jantar; aliás, mal tocou na comida. Um forte enjôo a atingiu e ela nem cogitou comer. Logo estava em seu quarto, brincando com o brilhante girassol que tinha guardado na gaveta do criado–mudo. Cheirava–o, mas ele não tinha um aroma conhecido, tinha o cheiro do passado. Enquanto refletia sobre isso e sobre a novela que esquecera de assistir, enroscou–se nas cobertas e em seguida adormeceu.
A contragosto, abriu um olho já se sentindo atrasada. Lembrava–se muito bem do aviso do gerente: “A pontualidade é a maior virtude que se pode praticar, principalmente dentro deste estabelecimento. Mais do que isso, nosso slogan e blábláblá...”.
Com raiva agarrou o preguiçoso rádio–relógio, esbarrando no girassol e fazendo–o cair no chão.
Os números brilhavam azuis: 6:59AM.
E o telefone tocou.
–A flor, te lembras? Envergonho–me de tal insistência, mas necessito dela, por favor! Se pudesse me entender, talvez você...
A moça puxou o foi da tomada. Nenhuma ligação a acordaria antes da hora no dia seguinte, pois elas não seriam recebidas. Simples assim.
Ela passou o dia nervosa. Piorou quando teve que trocar o encontro relaxante com os mortos por uma visita à avó doente no hospital. Tão entubada e quieta que a vida parecia apenas um termo médico. A moça não via razão para manter a em outros tempos tão alegre vovó naquela prisão de vida e de morte.
Ao colocar o pijama naquela fria noite, verificou mais uma vez se o telefone estava desligado. Sim, estava. Por via das dúvidas, colocou–o também em cima do armário. Apenas por precaução, claro.
Ela não costumava ter pesadelos, só quando repetia a buchada que sua mãe fazia no jantar, porém chegou a suar frio naquela noite. Por acordar durante a estranha perseguição da qual fugiu, não se lembrava de nada. Apenas arfava e sentia o coração a mil.
O telefone tocou,
A moça, tão estupefata, esperou o segundo toque para pular da cama e alcançar o telefone, que ainda repousava sobre o armário.
–Rápido, moça! Respeito sua, hm, lentidão, porém não posso mais suportar! Acorde para si mesma! Deixe de se esconder e...
Ela gritou do fundo de seu coração e desligou o telefone. Tremendo, agachou–se rente à parede e como uma criança enterrou a face nas mãos.
O girassol, tão intenso quanto no dia em que ela o recolhera, a encarava do tapete. Na penumbra, a flor brilhava tanto que parecia que o verdadeiro sol vinha dela.
Vestiu rápido um roupão e delicadamente abriu a porta: atravessaria a rua e deixaria o girassol sobre o túmulo. Era essa a única saída.
Alheia a duas senhoras apontado e fofocando sobre ela, empurrou o pesado portão e caminhou pelas ruazinhas. Encontrou o túmulo tão morto como antes, coberto pelos mesmos girassóis. Infelizmente, a moça não notou o quanto pareciam mais... mortos.
Sentou–se e acariciou a pedra fria. Estava em paz, sozinha. Fechou os olhos. Relaxou o corpo e deixou o girassol cair da mão esquerda.
Uma voz entrou por seu ouvido e uma mão pousou sobre seu ombro: era ele, Carlos, seu namorado que ela não via há muitos anos.
–Até que enfim você veio, minha flor.
Carlos, há tempos havia sido dado como morto. Porém não mais para ela.
A moça o abraçou e o beijou, enquanto uma brisa levou para longe todos os girassóis.
Partindo do início e fim de uma narrativa de Carlos Drummond de Andrade, elabore o conto seguindo orientações...
segunda-feira, abril 20, 2009
Stargirl
A lua parada no céu
Pregada como um quadro eterno na noite escura
Brilhante testemunha até o amanhecer
Iluminando minha vida e meus erros.
Dona na própria verdade
E da imortalidade das estrelas
Eu aperto com os dedos o papel
E peço a você, lua,
Que presencie interruptamente o meu sofrer
E preserve para sempre minha paixão.
Pregada como um quadro eterno na noite escura
Brilhante testemunha até o amanhecer
Iluminando minha vida e meus erros.
Dona na própria verdade
E da imortalidade das estrelas
Eu aperto com os dedos o papel
E peço a você, lua,
Que presencie interruptamente o meu sofrer
E preserve para sempre minha paixão.
terça-feira, fevereiro 17, 2009
2050? Ou Hoje?
Perdoem o texto de quatro páginas publicado no post passado. Achei-o irresistível.
******************************************
Despertou com a cabeça no lugar dos pés, o travesseiro macio longe da cabeça. Os lençóis estavam embolados no chão. Devia ter tido um pesadelo, mas não se lembrava.
Era muito cedo ainda.
Pelas duas paredes envidraçadas de seu quarto, no último andar do prédio, o 34º, ela viu a vista mais linda que existia: o sol manso e laranja nascendo no leste, ao mesmo tempo iluminando intensamente o que recebia sua luz e escurecendo demais o que ficava nas sombras; uma beleza indigna daquela data. As nuvens tinham formas abstratas, eram coloridas em tons quentes. Seringueiras fortes de quase oitenta metros de altura cercavam o prédio e suas folhas balançavam acompanhando uma brisa delicada, misturando-se como se fossem uma só. Muito além, era possível ver campos verdes e cintilantes, intocados, apesar de muito bem cuidados. Um fino riacho serpenteava perto da linha do horizonte. A profundidade das cores doía os olhos, mas não era possível parar de apreciar.
“Como puderam prever um fim de semana com neve?”
Nenhum passarinho piava.
Julia agora estava de pé, encostada com dificuldade no vidro blindado, de pé sobre as perninhas finas e brancas: tocava com os dedos ásperos a proteção fria da onde nunca teria permissão de sair. O enorme quarto, gelado, limpo e perturbador, era preenchido apenas por uma cama e uma estante com alguns livros, ao lado, uma porta que não tinha maçaneta.
Nenhuma borboleta batia as asas.
Olhou para seu reflexo quase imperceptível, o retrato de uma velha com idade de garota: uma lágrima escorreu pela bochecha espinhenta. Chorar, sem estar realmente triste, sem ter certeza da tristeza, para quê? Nunca correria naqueles campos nem escalaria aquelas árvores. Não nadaria nos rios nem respiraria o ar de fora. Era a realidade. Era a verdade. Era a certeza. Era imutável. Em todos os dias de sua vida.
Nenhuma formiga trabalhava seu trabalho de formiga.
Mas naquela data específica, ano a ano, tudo piorava um pouco para ela: a graça do mundo ficava maior, parecia acenar, sorrir e convidá-la carinhosamente para que desfrutasse-a com prazer. Tudo se tornava mais especial, mais claro, mais vivo! Tudo parecia voltar a ser o que era antes.
Em Cinco de Janeiro de 2038, uma terça-feira, às 19h34min, uma bomba atômica superior a todas as que jamais foram lançadas era preparada para ser lançada em algum país (qual ninguém se lembra) que estava em uma violenta guerra com outro (também esquecido), porém explodiu na base no meio do que era chamado o Oceano Pacífico. Um erro humano, uma falha nos cálculos, sabotagem? Nada nunca seria provado ou discutido.
Não havia sobrado nenhum ser humano ou animal que não estava dentro daquele prédio.
O que Julia sabia com clareza? “Que lá fora,”, como diziam os adultos, “não existe nada a não ser a natureza da qual nós nunca deveríamos ter evoluído e que nós nunca deveríamos ter transformado. Nosso poder incontrolável nos fez e nos desfez. Mas agora já é tarde para começar de novo. Nada mais poderá existir fora daqui. Somos o fim de nós mesmos e também o começo do que um dia fomos.”
Eles eram, sim, talvez dramáticos. Mas as palavras certas, melancólicas e verdadeiras continuavam sendo passadas de pessoa a pessoa, e estavam escritas na porta de cada quarto em letras infantis. Ao lembrá-las com atenção, Julia foi atingida por fortes memórias esquecidas, dos tempos em que ainda tinha sua mãe e seu pai, seu irmão mais velho, sua casinha no campo, sua saúde intacta, a liberdade...
-EU AINDA VOU SAIR DAQUI! EU VOU!
Batia com os punhos cerrados no vidro. Doía, mas o seu coração aprisionado doía mais. Ela gritava, chorava, chutava, soluçava; uma confusão de emoções vergonhosa e que estivera presa dentro dela desde que se conhecia por gente libertou-se quando ela vagou em seus pensamentos e deixou de lado o controle da razão. Estava sozinha? Não, tinha os outros sobreviventes. Mas continuava solitária, sem alguém que partilhasse do mesmo desejo e da mesma saudade da vida.
Quando se aquietou, uma mulher entrou em seu quarto, reclamando sobre a barulheira. Julia mal prestou atenção: mentiu que tinha caído, o que era comum. A mulher saiu, sem mais perguntas. Ninguém sabia como se importar com os outros, como era amar. Teria sido assim a vida antes?
Julia tinha um plano e estava decidida: sairia (como nunca ninguém tinha saído) daquele prédio. Acreditou em si mesma e em Deus; tinha fé, tinha coragem, tinha que viver, ou morrer tentando.
Ela resmungava enquanto descia a escada em caracol. Parava de degrau em degrau, lenta como uma tartaruga, pois não agüentava a descida: não tinha força física naquele corpo deixado de lado durante tanto tempo. Respirava ofegantemente, agarrando-se ao corrimão e à esperança.
Enfim térreo. Tinha demorado muito para chegar lá; com certeza os melhores tons do sol já deviam ter desaparecido do céu, teria sobrado apenas a luz forte, nenhuma sombra. Agora chegara a hora.
Passou-lhe pela cabeça o pessimista sentimento de que poderia simplesmente não conseguir. Alguém a impediria, a aprisionaria novamente, ‘para a sua própria segurança’, tentaria afogar seu sonho com discursos? Ou, por incrível que pareça, poderia ela se descobrir incapaz de sair, impossibilitada de encarar o desconhecido, medrosa?
Só saberia se tentasse.
Caminhou normalmente pelo corredor abandonado, inspecionando o lugar com os olhos cheios de lágrimas, tremendo. A porta que dava para fora não tinha nada de mais: era apenas velha e marrom, a madeira decorada com folhas e frutos gastos. A chave antiga, enferrujada, sempre estava na maçaneta: era só girá-la e sair; tão fácil que parecia ser algo usual! Não havia e não haveria nada para atrapalhá-la.
Ela suspirou, correu, de olhos fechados destrancou a porta e saiu.
Desabou no campo. Julia estava exausta. Ao sair do prédio, com medo de evaporar pela radiação ainda existente, tinha notado como era diferente existir fora do prédio. Experimentava cada parte de seu corpo, sentia-se plena, viva como nunca e dona de si. Conheceu novas sensações, novos cheiros, novas cores, novos pensamentos, novos sons, uma nova Julia. Não havia mais nenhum problema de saúde nela e nenhum medo, nenhuma dor.
Ela sorria pela própria liberdade e por amar de novo a vida. Riu: como o céu parecia infinito dali, tão azul!
De repente, uma minhoca saiu da terra e esticou-se ao lado dela, preguiçosa e nojenta.
Julia chorou de alegria.
Havia esperança.
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Despertou com a cabeça no lugar dos pés, o travesseiro macio longe da cabeça. Os lençóis estavam embolados no chão. Devia ter tido um pesadelo, mas não se lembrava.
Era muito cedo ainda.
Pelas duas paredes envidraçadas de seu quarto, no último andar do prédio, o 34º, ela viu a vista mais linda que existia: o sol manso e laranja nascendo no leste, ao mesmo tempo iluminando intensamente o que recebia sua luz e escurecendo demais o que ficava nas sombras; uma beleza indigna daquela data. As nuvens tinham formas abstratas, eram coloridas em tons quentes. Seringueiras fortes de quase oitenta metros de altura cercavam o prédio e suas folhas balançavam acompanhando uma brisa delicada, misturando-se como se fossem uma só. Muito além, era possível ver campos verdes e cintilantes, intocados, apesar de muito bem cuidados. Um fino riacho serpenteava perto da linha do horizonte. A profundidade das cores doía os olhos, mas não era possível parar de apreciar.
“Como puderam prever um fim de semana com neve?”
Nenhum passarinho piava.
Julia agora estava de pé, encostada com dificuldade no vidro blindado, de pé sobre as perninhas finas e brancas: tocava com os dedos ásperos a proteção fria da onde nunca teria permissão de sair. O enorme quarto, gelado, limpo e perturbador, era preenchido apenas por uma cama e uma estante com alguns livros, ao lado, uma porta que não tinha maçaneta.
Nenhuma borboleta batia as asas.
Olhou para seu reflexo quase imperceptível, o retrato de uma velha com idade de garota: uma lágrima escorreu pela bochecha espinhenta. Chorar, sem estar realmente triste, sem ter certeza da tristeza, para quê? Nunca correria naqueles campos nem escalaria aquelas árvores. Não nadaria nos rios nem respiraria o ar de fora. Era a realidade. Era a verdade. Era a certeza. Era imutável. Em todos os dias de sua vida.
Nenhuma formiga trabalhava seu trabalho de formiga.
Mas naquela data específica, ano a ano, tudo piorava um pouco para ela: a graça do mundo ficava maior, parecia acenar, sorrir e convidá-la carinhosamente para que desfrutasse-a com prazer. Tudo se tornava mais especial, mais claro, mais vivo! Tudo parecia voltar a ser o que era antes.
Em Cinco de Janeiro de 2038, uma terça-feira, às 19h34min, uma bomba atômica superior a todas as que jamais foram lançadas era preparada para ser lançada em algum país (qual ninguém se lembra) que estava em uma violenta guerra com outro (também esquecido), porém explodiu na base no meio do que era chamado o Oceano Pacífico. Um erro humano, uma falha nos cálculos, sabotagem? Nada nunca seria provado ou discutido.
Não havia sobrado nenhum ser humano ou animal que não estava dentro daquele prédio.
O que Julia sabia com clareza? “Que lá fora,”, como diziam os adultos, “não existe nada a não ser a natureza da qual nós nunca deveríamos ter evoluído e que nós nunca deveríamos ter transformado. Nosso poder incontrolável nos fez e nos desfez. Mas agora já é tarde para começar de novo. Nada mais poderá existir fora daqui. Somos o fim de nós mesmos e também o começo do que um dia fomos.”
Eles eram, sim, talvez dramáticos. Mas as palavras certas, melancólicas e verdadeiras continuavam sendo passadas de pessoa a pessoa, e estavam escritas na porta de cada quarto em letras infantis. Ao lembrá-las com atenção, Julia foi atingida por fortes memórias esquecidas, dos tempos em que ainda tinha sua mãe e seu pai, seu irmão mais velho, sua casinha no campo, sua saúde intacta, a liberdade...
-EU AINDA VOU SAIR DAQUI! EU VOU!
Batia com os punhos cerrados no vidro. Doía, mas o seu coração aprisionado doía mais. Ela gritava, chorava, chutava, soluçava; uma confusão de emoções vergonhosa e que estivera presa dentro dela desde que se conhecia por gente libertou-se quando ela vagou em seus pensamentos e deixou de lado o controle da razão. Estava sozinha? Não, tinha os outros sobreviventes. Mas continuava solitária, sem alguém que partilhasse do mesmo desejo e da mesma saudade da vida.
Quando se aquietou, uma mulher entrou em seu quarto, reclamando sobre a barulheira. Julia mal prestou atenção: mentiu que tinha caído, o que era comum. A mulher saiu, sem mais perguntas. Ninguém sabia como se importar com os outros, como era amar. Teria sido assim a vida antes?
Julia tinha um plano e estava decidida: sairia (como nunca ninguém tinha saído) daquele prédio. Acreditou em si mesma e em Deus; tinha fé, tinha coragem, tinha que viver, ou morrer tentando.
Ela resmungava enquanto descia a escada em caracol. Parava de degrau em degrau, lenta como uma tartaruga, pois não agüentava a descida: não tinha força física naquele corpo deixado de lado durante tanto tempo. Respirava ofegantemente, agarrando-se ao corrimão e à esperança.
Enfim térreo. Tinha demorado muito para chegar lá; com certeza os melhores tons do sol já deviam ter desaparecido do céu, teria sobrado apenas a luz forte, nenhuma sombra. Agora chegara a hora.
Passou-lhe pela cabeça o pessimista sentimento de que poderia simplesmente não conseguir. Alguém a impediria, a aprisionaria novamente, ‘para a sua própria segurança’, tentaria afogar seu sonho com discursos? Ou, por incrível que pareça, poderia ela se descobrir incapaz de sair, impossibilitada de encarar o desconhecido, medrosa?
Só saberia se tentasse.
Caminhou normalmente pelo corredor abandonado, inspecionando o lugar com os olhos cheios de lágrimas, tremendo. A porta que dava para fora não tinha nada de mais: era apenas velha e marrom, a madeira decorada com folhas e frutos gastos. A chave antiga, enferrujada, sempre estava na maçaneta: era só girá-la e sair; tão fácil que parecia ser algo usual! Não havia e não haveria nada para atrapalhá-la.
Ela suspirou, correu, de olhos fechados destrancou a porta e saiu.
Desabou no campo. Julia estava exausta. Ao sair do prédio, com medo de evaporar pela radiação ainda existente, tinha notado como era diferente existir fora do prédio. Experimentava cada parte de seu corpo, sentia-se plena, viva como nunca e dona de si. Conheceu novas sensações, novos cheiros, novas cores, novos pensamentos, novos sons, uma nova Julia. Não havia mais nenhum problema de saúde nela e nenhum medo, nenhuma dor.
Ela sorria pela própria liberdade e por amar de novo a vida. Riu: como o céu parecia infinito dali, tão azul!
De repente, uma minhoca saiu da terra e esticou-se ao lado dela, preguiçosa e nojenta.
Julia chorou de alegria.
Havia esperança.
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