segunda-feira, outubro 05, 2020

Futebol de várzea

- Eu já falei que sem pagar não joga.

- Entende a dele hoje, Melzinho, acontece com todo mundo.

- Aqui não tem essa, não dá pra deixar nem uma vez.

- Eu sei que não pode, mas…

- Barico já assumiu que atrasou e depois compensa. Libera aí.

- Que caô pra tudo isso, e o caixa que tinha de reserva?

- Eu acerto a dele, taí os vinte que faltavam.

- Obrigada mano, tá contigo amanhã sem falta.

- Isso não tá certo, eu tô com o Melzinho.

- Qual é Imperatriz, semana passada foi você que me pediu pra cobrir o seu.

- Mas é que a patroa encrencou, tirou minha carteira.

- Nem vem, não tem essa. Meu time não entra com um a menos.

- Vou acertar com correção. Valeu, Pará.

- Engole essa agora, Melzinho!

- Nem com um a mais tu ganharia...

- Aqui é várzea, mas até a várzea tem regra, Cauan. Não entra sem pagar…

- E quando é do teu time?

- Não pode entrar alcoolizado também, né?

- Deixa disso Imperatriz, cê nem amassou a latinha antes de entrar em campo.

- Não pode jogar na chuva.

- Que a chuteira de açúcar derrete...

- Olha quem chegou!

- Ô Meia Doze, chegou aí!

- Enfim apareceu!

- Perdão, rapaziada!

- Pode vir até para uma pelada, Meia Doze vem na estica. E o perfume?

- É que deixei a morena no salão.

Meia Doze, cadê a contribuição?

- Leva, Imperatriz.

- Fechado. Hoje temos até comissão técnica…

- Resolvendo pros dois times...

- A ilustre presença…

- Do seu Ronaldo!

- Uma salva de palmas!

- É, tô pra assistir. Pará me trouxe.

- Fica na sombra, tem água e tudo, seu Ronaldo. O senhor fica à vontade, tá em casa.

- Tô tranquilo com vocês, hoje é dia.

- A carona da volta eu faço, seu Ronaldo, o senhor fica tranquilo.

- Agradeço, Meia Doze.

- Melzinho, Juca fica de que lado hoje?

Um tempo aqui, outro com você.

Aí troca pelo Lapa.

Cauan, mais respeito com o Lapa.

- Lapinha um dia chega lá.

- Lapinha vai crescer ainda.

- E Lapinha não vai ter nem tempo de jogar aqui.

- Magina, gente. Vocês tão doidos.

- Que é isso, a gente tem que te valorizar.

- Não tem problema.

- Nunca deixa ninguém falar uma coisa dessas de você. O Cauan não tem noção.

- Tá tudo bem, irmão.

- Então tá. Falta quem?

- Tamos todos.

- Falta ninguém. E todo mundo pagou – só o Barico que não, mas…

- Já tá certo, fiz a dele.

- Ihhh, não sabia! Podia ter feito a minha também!

- Capitão que é capitão paga até pro time jogar.

- Tô brincando, tô brincando...

- É isso, ele resolve por nós.

- Um dia eu, outro dia eles.

- E nessa não tem regra nenhuma.

- Ô Imperatriz, tu é chato, hein?

- Pior que ele, só você.

- Que nada. Pior que nós, só nós.

- Olha, às vezes você acerta, Cauan.

- Eu me esforço. E desculpa aí, Lapinha.

- Quero tentar esse lado do campo, nunca comecei do lado esquerdo.

- Fica à vontade, pode até começar com a posse.

Vai que dá sorte pra vocês, uma vez.

- Não adianta, enquanto ele não resolver o motor do Vectra não quer saber de jogar bola direito.

- Semana que vem tiro ele da oficina.

- De vez?

- Acho que sim, Meia Doze.

- Muito bom, muito bom...

- Aí não dá né, como é que cê vai jogar sem caneleira?

- Esqueci, mas não precisa.

- Pelo menos na esquerda.

- Tá tranquilo.

- Toma a minha, pode pegar

- Então valeu, Juca.

- Fica cada um com uma. Melhor que nada.

sábado, setembro 19, 2020

Pirâmide

Hoje trabalhei até tarde, me frustrei com tudo e dormi de roupão. Dormi um sono sem ter sono, só pra não ficar acordada sem o que fazer; não aguentava mais estar perdida.

Acordei fora do espaço e do tempo, sem nenhuma cor nem cheiro, às nove e quarenta da noite. Saí de um sonho estranho para me preparar para outro. Comi voando um macarrão na manteiga com pouco queijo, tomei um banho bem quente e lavei o corpo com força.

O que colocar? Eu já sabia, mas quis provar outras coisas só pra me atrasar. Não entro nessa saia, essa blusa me faz suar, esse sapato me aperta, esse vestido não dá certo sem meia calça. E eu não queria pôr meia; fui de coturno alto, calça justa e uma jaqueta que não era minha. Dei um jeito de não levar bolsa, não queria carregar absolutamente nada.

O cabelo estava solto, finalmente um dia em que ele ficou perfeito porque quis. Não enrolei tentando alguma maquiagem; deixei estar, porque à noite todos os gatos são pardos, só precisam de um pouco de hidratante e batom vermelho. Penteei a sobrancelha e passei perfume, fiquei sem tempo de me depilar ou de fazer a unha. E sair assim é libertador – pulei o compromisso de estar perfeita, adequada, pronta. Estou bem crua.

E como sempre, eu cheguei atrasada, furei a fila, fiz amigos do lado de fora. E virei uma tequila enquanto tomava um chopp, depois mais um e mais uma. É noite de dançar de cabeça baixa, deixar rolar. Tenho uma vontade que só aparece nesses momentos, de me enfiar entre um monte de gente pra viver. E nessas eu sou craque em achar que tenho o controle de tudo, de todos, da situação... Só não de mim. Na mistura de barulho, bebida, gente, cheiro, vontade de ir no banheiro pra fazer xixi e pra transar, eu quero me perder de novo.

Vou fazer o que der na telha. Muito, muito dificilmente serei pega desprevenida; eu te vi desde que você chegou, do título até aqui, e você achou que eu não perceberia a sua leitura... Eu sorri e te pedi um cigarro como quem não quer nada, para ter algum assunto pra conversar. Quem sabe ali no cantinho? Que legal tudo isso que você falou. Eu também tenho um monte de histórias boas pra contar. Tenho inclusive a dica de uma padaria aqui perto.

Dançar, só mais um pouquinho, porque eu adoro essa música. E agora vamos, que a fila para pagar diminuiu. Eu fiz amizade com o segurança quando cheguei e ele me abre um caixa vazio – eu te puxo para vir comigo. Mas as comandas são separadas, lógico. Depois eu penso aonde estou indo e que horas são, isso não importa, eu já fiz esse caminho tantas vezes.

Mão no bolso com medo de ser roubada, vamos subir a rua. E encontrando as nossas coincidências, os nossos desencontros, tudo num quarteirão, no balcão da padaria, no táxi indo embora, quando descobrimos que moramos no mesmo prédio.

Por essa eu não esperava. Você mora lá mesmo? Por que não falou antes? Quem poderia imaginar que eu ia encontrar meu vizinho nessa noite...

E que nós moramos no mesmo apartamento há anos, mas não nos conhecíamos de verdade.

sábado, agosto 15, 2020

Mare maré

Quando você for dormir

Eu vou sentar para escrever.

E das palavras que eu deixar no seu sonho

Vão vir as inspirações para eu criar uma história.

A história de uma praia.

 

Cujo mar se afastava cada vez mais da costa,

Ondas que batiam para se recolher, uma a uma,

O sol a pino sobre a areia úmida.

 

O mar se recolheu totalmente

Sem perspectiva de voltar.

Você decidiu andar em direção ao horizonte

Onde ainda via um resto de água.

 

O sal queimou os seus pés

os peixes se debatiam

as aves exaustas caíam do céu

os navios encalhados

os corais descobertos

Em linha reta

Para o fundo.

 

E você andou e andou

O horizonte às vezes parecia mais perto, e às vezes mais longe.

Você continuou andando

Cada vez menos atento ao sol que se punha.

 

Quando cansou de andar, você sentou

Na proa de um barco naufragado.

Já era quase noite

E nada do horizonte chegar.

 

Era melhor descansar por ali, antes que você acordasse

E o sonho acabasse

Quando você estivesse debaixo d’água.

 

Enfim, quem era você nessa história?

O pescador que quer puxar o texto da água a qualquer custo?

O anzol à espreita para prender as ideias que passam?

A isca exibida a atrair as histórias?

Ou o peixe idiota, que boiava com fome, e morreu pela boca?

sexta-feira, julho 17, 2020

A tampa do liquidificador

De plástico, o copo foi ao chão. E rachou inteirinho, sobrou só a alça intacta.

Como colar um copo de liquidificador, que precisa aguentar as rotações, impactos, forças, e ainda dar conta de picar, moer, misturar de sólidos a líquidos? Tentar colar é porquice, não vale a pena.

- Eu compro um copo novo amanhã, eu juro. Eu sei onde achar, é só passar nessa lojinha.

E o amanhã transformou-se em dia seguinte, que virou final de semana, que passou à próxima semana, que ficou para o fim do mês; e enquanto isso as receitas se adaptaram ao processador, a bater na mão e a fatiar os ingredientes ao menor tamanho possível.

Todos os esforços que permitissem normalizar a ausência de um liquidificador para a cozinha. 

Pois bem, chegou a pandemia. Do desespero de não saber se teria emprego para ganhar dinheiro, se teria dinheiro para sobreviver, se ao menos iria sobreviver, o liquidificador compreensivelmente deixou de ser a primeira das preocupações da vida dele. Afinal, estava impedido, por medidas sanitárias globais, de visitar a lojinha onde encontraria pessoalmente o copo que servisse ao seu modelo.

A desculpa que parecia passageira esticou-se no horizonte. O tédio dos dias em casa aumentou sua vontade de cozinhar de tudo, de rabada a rabanada, e ele não tinha o bendito copo. Num dia de súbita empolgação, entrou online no Magazine Luiza, nas Lojas Americanas, no Extra e até no Enjoei, decidido a encontrar um substituto.

No fim descobriu o número da lojinha de esquina em que planejava ir antes de tudo isso. Ligou e em cinco minutos o copo estava a caminho na garupa do motoboy, já devidamente higienizado.

Ele recebeu a sacola, que ficou por três dias atrás da porta, junto com a saudade atrasada de cozinhar decentemente. E se tivesse esquecido todas as manhas de fazer um bolo?

Será que o novo normal para ele seria não saber mais cozinhar? Que prognóstico deprimente.

Enfim abriu a sacola, resgatou o copo novo (lavou mais uma vez) e encaixou no liquidificador. Perfeito, feitos um para o outro. Tacou uma lata de leite condensado, uma lata de creme de leite, uma lata de leite, uma xícara de farinha de trigo, uma xicara de açúcar, três ovos - e apertou o pulsar na velocidade máxima. 

E virou ele mesmo bolo. Só que cru.

Ele não especificou que o copo precisava vir com tampa.

quarta-feira, junho 17, 2020

A mesa roxa

- Estamos aqui reunidos, ao redor desta mesa roxa...

Os sete homens se encararam. Alguns deles se conheciam muito bem; dois deles, o primeiro e o último a chegarem, estavam incrédulos com aquela reunião. Era algo que eles jamais teriam imaginado.

Um deles, um pouco mais deslocado, tirou do bolso o tabaco e o papel e começou a enrolar um cigarro. Ninguém tinha dito que não podia fumar naquela mesa.

Outro, o mais novo de todos, fingia que aquela história não era com ele. Ele não entendia como o sentado à sua esquerda, com os braços tatuados à mostra, tinha sido convidado para estar ali. Mas estava, tanto quanto ele. Como era possível?

O segundo a chegar não queria aparentar, mas estava totalmente envergonhado com aquilo. Ainda, ou já meio bêbado, demonstrava a sua maior façanha: equilibrar um copo sobre a barriga, que escapava da camisa.

O seguinte estava enfurecido. Não tinha sido combinado que ele seria chamado para sentar, achou que ficaria só no cantinho, talvez conversando com a garçonete do bar. Mas quando chegou, lá estava a cadeira com o seu nome marcado.

Enfim, era desconfortável, mas eles já tinham se reunido antes, só não sabiam. Os seus nomes compunham a lista estúpida de um caderno, e agora eles juntavam suas forças por algo maior. A voz prosseguiu:

- Estamos aqui reunidos, ao redor desta mesa roxa, para nos tornarmos uma sanguessuga. A mais forte que jamais existiu. Essa é a nossa única chance de vitória.

Todos se inclinaram para ouvir melhor aquele plano. O segundo derrubou na mesa o copo que apoiava sobre a barriga; o quinto, que nem o conhecia, passou um pano para secar o líquido derramado.

- Mas essa não será uma sanguessuga convencional. Para funcionar, ela terá que agir de dentro para fora. Estará na carne, nadando no músculo, mordendo a parede interna da pele, agindo para trazer para dentro tudo que há de ruim no exterior.

Um pigarro. Seguido por um longo assovio.

- Estamos entendidos quanto ao propósito do animal?

Só um deles compreendeu o funcionamento biológico da coisa; e para imitar o que fumou primeiro e mostrar sua superioridade, ele tirou um maço de cigarro do bolso e ofereceu a todos. Dois aceitaram, e o isqueiro passou entre eles.

- Temos um combinado. Vamos sugá-la até ela morrer.

*

Ela acordou com uma dor na lateral da coxa. Mas nem doía tanto assim.

Ao trocar de roupa, notou um ponto roxo. Sentiu-o um pouco mais quente do que o resto da pele e, com certeza, mais sensível também.

Não lembrava de ter batido a perna em lugar nenhum. Afinal, estava em quarentena e não saía de casa. Devia ter esbarrado em alguma mesa, no braço da cadeira. Numa quina qualquer.

Comparou o hematoma com a altura dos seus móveis: eram todos mais altos ou mais baixos do que o roxo. E a dor seguia ali, perfeitamente redonda, mais escura a cada dia, pulsando... Consumindo a sua paz.