Vinícius cruzou a rua sem olhar. De repente encontrou, num instante muito rápido, a pessoa que vinha em sua direção.
Era Fabiana. Fabi, Fofinha, a falsidade em pessoa, o fim da felicidade de seu falo quando finalmente filou, em plenas férias em Florianópolis, a fugaz foda que tanto faria falta mais pra frente.
Depois daquela noite maravilhosa, quando todas as estrelas se alinharam na pousada de frente para o mar e proporcionaram a melhor química do mundo, nenhum dos dois tinha trocado uma única palavra.
Agora ela estava ali, a três linhas de distância na faixa de pedestres, se aproximando da gosma derretida que ele virou.
Quando Fabi o percebeu, parou. Fincou os pés com tanta força no asfalto que estragou o conserto malfeito do buraco recém-tapado. Abriu-se a cratera que estava ali semana passada, dentro da qual ela caiu.
Vinícius, apenas gosma derretida, tremia em sua consistência. Pouco a pouco escorreu para as profundezas daquele buraco na faixa de pedestres.
Na escuridão subterrânea da cidade, pontilhada pelas luzes que ultrapassavam os bueiros, os dois poderiam, com mais privacidade, se encontrar enfim, para o que quer que fosse, depois de tanto tempo separados. Até aquele momento Vinícius e Fabi se imaginavam muito longe um do outro, ainda que todo dia seus caminhos se cruzassem, sem saber, ao atravessar aquela mesma faixa de pedestres.
domingo, março 08, 2020
terça-feira, dezembro 31, 2019
Mãos ao alto
Estou guardando uma lesão no polegar direito. É uma dor de
segurar qualquer coisa, um lápis, mouse, escova de cabelo. Se a mão está em
repouso, aberta, tudo bem. Qualquer movimento e eu agarro a dor no ar, sem
falta.
Eu sei que tem sim algo trincado nos ossinhos, algo que não vai
se arrumar sem a devida imobilização. Já decidi que quando eu precisar de
descanso, quando não der conta nem de pedir as contas, vou fugir para o pronto-socorro
no horário de pico com o laptop debaixo do braço. O tempo de espera para ser
atendida e examinada servirá para me trazer paz.
De repente, quando achei que a vida tinha se tornado
realmente intolerável, e a necessidade de aguardar o atendimento seria impossível
de ignorar, a dor pulou de uma mão para a outra. Da destra necessária, imprescindível,
fugiu para a canhota inútil, boba. E agora?
Engessar a outra mão não funciona como desculpa para abdicar
do dia a dia profissional, e deve me prejudicar apenas 50% em âmbito privado:
lavar o cabelo, usar talheres, dirigir, perderei a independência sem perder a utilidade. E os meus chefes com isso? Contanto que
a minha mão apta esteja disponível, pode vir só ela mesma, serrada na altura do
pulso, para discar o telefone, copiar um documento, arrumar as gavetas. Todo o
resto em dor, quebrado, destruído, não importa; basta que a ferramenta de trabalho
tenha vontade de corresponder ao script combinado.
Desapaixonada
Fiz uma piada sobre ele para a minha mãe e ele me empurrou no estacionamento do supermercado. Pediu desculpas quando eu reclamei.
Apontei um erro no trabalho que ele estava fazendo com um tom zombeteiro, tomei um dedo na cara. Sem nenhuma necessidade de ser enquadrada, tive que levantar a voz para dizer que aquilo não era certo. Ele aquietou.
Trouxe o remédio que ele não queria e ele jogou o cobertor longe. Tomou sem me olhar e virou para dormir. Falou um obrigado bem seco.
Por duas vezes eu me machuquei, uma vez a mão e a outra as costas. Precisei de algumas semanas para sarar, toda vez reclamando em voz alta para não deixar a dor passar. Ele disse que ficou muito triste por ter feito isso comigo.
Muito estranho estar com alguém desse jeito. Aos poucos, quando acho que estou tomando liberdade, eu me envolvo com mais profundidade. Passo a ficar presente em momentos diferentes. Ele não parece estar gostando e responde com grosseria. Eu não consigo pensar em outra coisa para chamar isso além de grosseria.
Muito ruim que seja essa a resposta. Se essa foi a única resposta que ele teve e é assim que sabe falar comigo, tudo bem. Se não é pessoal, é apenas parte da personalidade dele, eu entendo. Mas isso não me atrai. Não fiz nada para isso, não mereço, não gosto. E sabe o que eu faço quando eu não gosto?
Apontei um erro no trabalho que ele estava fazendo com um tom zombeteiro, tomei um dedo na cara. Sem nenhuma necessidade de ser enquadrada, tive que levantar a voz para dizer que aquilo não era certo. Ele aquietou.
Trouxe o remédio que ele não queria e ele jogou o cobertor longe. Tomou sem me olhar e virou para dormir. Falou um obrigado bem seco.
Por duas vezes eu me machuquei, uma vez a mão e a outra as costas. Precisei de algumas semanas para sarar, toda vez reclamando em voz alta para não deixar a dor passar. Ele disse que ficou muito triste por ter feito isso comigo.
Muito estranho estar com alguém desse jeito. Aos poucos, quando acho que estou tomando liberdade, eu me envolvo com mais profundidade. Passo a ficar presente em momentos diferentes. Ele não parece estar gostando e responde com grosseria. Eu não consigo pensar em outra coisa para chamar isso além de grosseria.
Muito ruim que seja essa a resposta. Se essa foi a única resposta que ele teve e é assim que sabe falar comigo, tudo bem. Se não é pessoal, é apenas parte da personalidade dele, eu entendo. Mas isso não me atrai. Não fiz nada para isso, não mereço, não gosto. E sabe o que eu faço quando eu não gosto?
sexta-feira, novembro 29, 2019
Subnutrida
Come assim, assado ou cru. Na verdade não come cru, não gosta. Come bem. Quase de tudo, tem seus gostos e seus favoritos, mas também tem aquilo de que não gosta. Come rápido, come acompanhada, come porque mandam, come logo cedo, come para trabalhar e come antes de dormir. Observa os outros comendo, toma muito cuidado ao comer. Não come frutas, não come sozinha em público, come por prazer e come para experimentar. Não sabe fazer nada pra comer, os outros têm que cozinhar. Há preferências e recusas, um prato predileto feito com amor e a falta de costume em relação a outras culinárias.
Mais importante do que o alimento, como é ingerido, com quem e quando, é o seu propósito para ela. Enfim, manter o corpo de pé. E para que?
Para dançar. Para atingir o grau máximo de perfeição, a nota completa, o giro correto, o pé exato e os braços certos. Sem alimento o corpo não tem forças, não fica de pé. E se não está de pé, não dança.
Falar com ela sobre comida não tem graça. Ela não vê graça na comida em si, mas no que ela proporciona. Ela consome com a esperança de que o metabolismo faça as massas, carnes e saladas tornarem-se fonte de energia. Come para o treino, antes e depois, para dar tempo de digerir e para obter resultados. Come sem pressão externa, não segue dietas, mas come concentrada. Come com um objetivo, além da saciedade e do prazer. Come porque o corpo demanda, e o corpo pede pela dança.
Come não só em gramas. Come o tempo entre um ensaio e outro, come as horas de preparação. Come o próprio suor e o das colegas, come a meia, o collant e as sapatilhas que usa no dia a dia. Come o público da apresentação, come a maquiagem e o gel no cabelo, come o figurino, as luzes e a trilha sonora. Come até a dor nos joelhos, que é palatável, come a professora. Saboreia o tempero do rigor, da exigência e dos elementos técnicos.
Tudo isso adquiriu um gosto conhecido. Em todos esses anos de dedicação, a dança criou o fogo a preparar todas as outras ações. Comer era um investimento em uma decisão maior, a de dançar por muitos e muitos atos, sem hora para acabar.
Mas parou. E não parou porque estava satisfeita, parou porque lhe tiraram o prato. Estando sem aquela receita estabelecida, diante de tantos sacrifícios que fez para juntar todos os ingredientes, não enxergou meios de continuar. E engordou, e emagreceu de novo, e algo mudou no seu corpo. Não é uma carência no exame de sangue, não são as dobras ou as magrezas da pele. Não é só isso. O que acontece é que a dança não a devora mais, mas o apetite permanece.
Mais importante do que o alimento, como é ingerido, com quem e quando, é o seu propósito para ela. Enfim, manter o corpo de pé. E para que?
Para dançar. Para atingir o grau máximo de perfeição, a nota completa, o giro correto, o pé exato e os braços certos. Sem alimento o corpo não tem forças, não fica de pé. E se não está de pé, não dança.
Falar com ela sobre comida não tem graça. Ela não vê graça na comida em si, mas no que ela proporciona. Ela consome com a esperança de que o metabolismo faça as massas, carnes e saladas tornarem-se fonte de energia. Come para o treino, antes e depois, para dar tempo de digerir e para obter resultados. Come sem pressão externa, não segue dietas, mas come concentrada. Come com um objetivo, além da saciedade e do prazer. Come porque o corpo demanda, e o corpo pede pela dança.
Come não só em gramas. Come o tempo entre um ensaio e outro, come as horas de preparação. Come o próprio suor e o das colegas, come a meia, o collant e as sapatilhas que usa no dia a dia. Come o público da apresentação, come a maquiagem e o gel no cabelo, come o figurino, as luzes e a trilha sonora. Come até a dor nos joelhos, que é palatável, come a professora. Saboreia o tempero do rigor, da exigência e dos elementos técnicos.
Tudo isso adquiriu um gosto conhecido. Em todos esses anos de dedicação, a dança criou o fogo a preparar todas as outras ações. Comer era um investimento em uma decisão maior, a de dançar por muitos e muitos atos, sem hora para acabar.
Mas parou. E não parou porque estava satisfeita, parou porque lhe tiraram o prato. Estando sem aquela receita estabelecida, diante de tantos sacrifícios que fez para juntar todos os ingredientes, não enxergou meios de continuar. E engordou, e emagreceu de novo, e algo mudou no seu corpo. Não é uma carência no exame de sangue, não são as dobras ou as magrezas da pele. Não é só isso. O que acontece é que a dança não a devora mais, mas o apetite permanece.
domingo, setembro 29, 2019
Oi
Se meus professores soubessem que eu escrevo aqui, ah, eles me matavam.
Não pela qualidade, pelos temas ou pelo estilo. Mas pela ideia de jerico de manter um Blogspot em pleno 2019.
Tem jeito mais antigo de divulgar os meus escritos? Tantas ferramentas, aplicativos que eu poderia utilizar, tantas formas de propagar as minhas ideias, e eu insisto num blogzinho muito amador, mal-acabado, sem design nenhum. Não levo nada para as minhas parcas redes sociais; não aproveito o que a tecnologia me oferece. Só posto aqui uma vez por mês, de acordo com a meta preguiçosa que eu estabeleci, e deixo os meus textos públicos, tomando ar. Quem quiser vir, que venha. Quem souber de antemão que esse é o meu lugar, por acasos do destino, e quiser ler, que o faça.
Ao jogar meu nome na internet, esse endereço até que é fácil de achar. Mas por que diabos alguém jogaria meu nome na internet, pesquisaria sobre mim aleatoriamente? Enquanto eu não linkar esse meu trabalho com os perfis que já tenho e cultivá-los pouco a pouco com meus textos, não há motivos para que esse blog ganhe mais do que um comentário perdido por ano.
Pode não ser essa a melhor hora para isso. Não é o momento certo para eu investir e esperar algum retorno, eu deveria me atualizar e me lançar apenas quando estivesse mais preparada. Mas é isso o que eu posso fazer por enquanto; é assim que eu gosto de escrever, e continuar com isso já me é mais do que prazeroso. Não devo ter medo de tentar expandir um pouco o público que aparece na minha sala de estar para me dar um oi.
Não pela qualidade, pelos temas ou pelo estilo. Mas pela ideia de jerico de manter um Blogspot em pleno 2019.
Tem jeito mais antigo de divulgar os meus escritos? Tantas ferramentas, aplicativos que eu poderia utilizar, tantas formas de propagar as minhas ideias, e eu insisto num blogzinho muito amador, mal-acabado, sem design nenhum. Não levo nada para as minhas parcas redes sociais; não aproveito o que a tecnologia me oferece. Só posto aqui uma vez por mês, de acordo com a meta preguiçosa que eu estabeleci, e deixo os meus textos públicos, tomando ar. Quem quiser vir, que venha. Quem souber de antemão que esse é o meu lugar, por acasos do destino, e quiser ler, que o faça.
Ao jogar meu nome na internet, esse endereço até que é fácil de achar. Mas por que diabos alguém jogaria meu nome na internet, pesquisaria sobre mim aleatoriamente? Enquanto eu não linkar esse meu trabalho com os perfis que já tenho e cultivá-los pouco a pouco com meus textos, não há motivos para que esse blog ganhe mais do que um comentário perdido por ano.
Pode não ser essa a melhor hora para isso. Não é o momento certo para eu investir e esperar algum retorno, eu deveria me atualizar e me lançar apenas quando estivesse mais preparada. Mas é isso o que eu posso fazer por enquanto; é assim que eu gosto de escrever, e continuar com isso já me é mais do que prazeroso. Não devo ter medo de tentar expandir um pouco o público que aparece na minha sala de estar para me dar um oi.
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