Vou tentar explicar o que vi acontecer com o meu irmão deprimido.
Eu estava sentado numa poltrona em seu quarto, lendo para passar o tempo e fingindo tomar conta dele à meia-luz do final de tarde. Depois de muitas e muitas horas dormindo, ele rolou na cama pela centésima vez para cobrir o rosto com o travesseiro. Acabou caindo no chão de cara.
Para quem esperava uma reação, um gemido de dor ou um suspiro de fracasso, não veio nada. Ele continuou do mesmo modo que caiu, braços junto do corpo, rosto para baixo. A queda foi seguida apenas pelo silêncio.
O corpo começou a se mover deitado pelo chão... Mas não de um jeito normal. Não estava serpentando ou rastejando. Não era como um filme de animação de massinha, com quadros em stop-motion. Não flutuava acima do chão, como o skate de ‘De Volta Para o Futuro’. Não se arrastava nem era carregado. Meu irmão mantinha uma velocidade constante e não emitia qualquer som.
Seguia para longe da cama. Fazia manobras para desviar de quinas de móveis, passou por debaixo das portas. Esteve em todos os cômodos da casa e ninguém deu bola. No máximo riram e levantaram os pés. Acredito que a melhor aproximação seria a de que boiava numa correnteza, sem os altos e baixos da força da água ou qualquer obstáculo do leito.
Eu e o cachorro da casa acompanhávamos aquela bizarrice alguns passos atrás, sem coragem de intervir. Não parecia real, mas estava acontecendo – ele estava em movimento sem se movimentar. Vimos seu corpo descer as escadas sem problemas, alcançar a garagem e passar por debaixo dos carros. Pareceu tomar algum impulso para ultrapassar o portão e... chegou à rua.
Então finalmente levantou da inércia. Saiu correndo sem olhar para trás.
terça-feira, novembro 27, 2018
terça-feira, novembro 06, 2018
Olho por olho
Para enxergar o que é bem pequeno e passa quase despercebido
aos meus olhos, conto com uma lupa antiga e ensebada na mesa do meu escritório.
Deixo-a deitada em cima de uma pilha e textos, protegendo-os do vento do ar
condicionado e de quem acha que pode arrumá-los. Com ar antigo, ela funciona
como peso de papel chique, um reminiscente de uma profissão que acabei de
começar a escrever.
A lupa tem quase 15 centímetros em seu comprimento – 2 terços
são a lente grossa, 1 terço é o cabo de madeira pintado de preto. Tem umas
letras pequenas escritas na borda inferior do vidro, algo tão minúsculo que eu
precisaria de uma outra lente para enxergar com propriedade. Na ponta do cabo,
um protetor de borracha ou plástico, não sei bem de que material, eu insisto em
cutucar com a unha quando não tenho inspiração pronta.
Em dias de bagunça no trabalho, a lupa some num cenário
amplo que não representa apenas o jornalismo, mas também outros pedaços da
minha vida desfocada; vira detalhe pequeno do meu tesão em ver as coisas com mais
clareza, procurar sempre, até encontrar o ponto que faltava. Às vezes é difícil
de achá-la na confusão de bolsa de ponta cabeça, caixa de lenço de papel, escova
de dente e uma cartela de remédio quase acabando. Quando preciso de ordem, junto
os papéis que eu li e enchi de marcadores coloridos e os arrumo nem muito na
ponta, nem muito no centro da mesa. Deposito a lupa pesada no centro exato da
primeira folha.
Ela não é muito prática, admito; é desajeitada de segurar,
desproporcional entre a finalidade do peso do vidro e o final amadeirado. Os documentos
de letras miúdas que lhe dariam algum trabalho são escassos, sempre posso
crescer a tela do computador. Sem a firmeza de uma mão que sabe que ali no
cantinho do papel, milimetricamente posicionado, há algo a ser visto, ela tomba
entre os dedos e cai em cima do pé. O vidro sobrevive, mas os dedos amassados
doem.
A lupa fica em cima da minha mesa como uma mensagem, não como
um objeto para o meu dia-a-dia. Quando encaixo a lente num olho aberto e fecho
o outro, fazendo careta para meus colegas, ela serve para que os outros me
olhem desproporcional à coisa pequena que eu sou, parte da engrenagem da
escrita muito maior – e para que eu enxergue os outros, tão grandes, e aumente
os seus detalhes, menores circunstâncias, no esforço de entender todo o mundo à
minha volta.
domingo, outubro 21, 2018
Listas importantes e desimportantes
Com uma ideia na cabeça – comparar a deturpação da imagem de mulheres históricas – e um prazo para entrega um pouco apertado, precisava de exemplos além da óbvia Cleópatra como grande ícone feminino. Queria consultar uma lista de mulheres conhecidas no senso comum, fáceis de lembrar, que foram incompreendidas por seus contemporâneos. Pesquisando no Google por "mulheres importantes na história", me decepcionei absurdamente com os conteúdos que encontrei e me motivei a escrever este texto. Nenhuma página que eu li se propôs a encerrar a discussão sobre quais são as mulheres mais importantes (dizem sempre que são muitas para entrarem na lista), mas possuem pontos em comum que são simbólicos.
Primeiro preciso dizer que a maioria das listas que eu encontrei foi feita em comemoração/homenagem ao dia da mulher – como se a importância dos feitos femininos devesse ser lembrada apenas durante um dia do ano. Nenhuma lista ultrapassava 30 nomes, sendo a maioria bem curta, com menos de 10. Mas vamos em frente que a situação só piora.
Algumas listas simplesmente elencam mulheres que foram as primeiras a desempenhar uma profissão comum aos homens em sua época: seus grandes feitos foram meramente conseguir trabalhar, incluir-se no mercado enfrentando a intolerância e a desconfiança, provando sua capacidade. Um homem que apenas trabalha, seja como atleta, médico, professor, cientista ou músico, está mudando o mundo? É claro que a quebra de padrões é importante ao abrir caminhos para diversas outras mulheres, mas a grande realização elencada nas listas está normalmente reestrita a esse fato. Eu esperava algo além disso, mas parece que deixamos de engatinhar em nossas conquistas há menos tempo do que eu imaginava. Outras listas ressaltam a “audácia, ganância e atrevimento” de mulheres ao disputar e negociar posições de poder. Essas características negativas desqualificam o pioneirismo como um desvio total da normalidade, despertado apenas em algumas poucas selecionadas.
Poucas listas detalham os feitos atingidos (descobertas, inovações, mudanças, conquistas, etc.), fatos anteriores e posteriores e suas biografias, e porque foram tão importantes para a história. A maioria compara a coragem de mulheres à de grandes homens, fisicamente falando – como se esta fosse uma característica masculina, estranha ao outro gênero, uma exceção. Nenhuma das mulheres lembradas tornou o mundo de alguma forma pior, mais injusto, menos bacana, etc. Todas são figuras benevolentes e contribuintes para o bem-estar mundial. Todas as listas apresentam uma foto de rosto ou de corpo de cada mulher, normalmente clicando o momento importante que a fez entrar para a lista.
Quase todas as mulheres agiram por/em companhia de/devido a/pela pressão de um homem, fosse ele o marido, pai, irmão, parceiro, etc. Ou seja, geralmente precisaram da influência de um homem para desenvolver suas habilidades, inseri-las no seu campo de atuação e dar-lhes o devido reconhecimento.
Pensei que estava sendo injusta e que minha pesquisa usava palavras muito simples em busca de resultados muito complexos – o subjetivo pelo objetivo. Decidi inverter a situação para testar essa hipótese.
Meu queixo caiu em 0,57 segundos, o tempo que o Google levou para realizar a pesquisa. Ao buscar por “homens importantes na história” ou “important men in history”, o termo homem/men é substituído por pessoa/figura. O gênero do ser humano de atuação tão importante deixa de ser relevante em função do que ele alcançou.
Desisti. Vamos com Cleópatra, a mulher, não o mito.
Primeiro preciso dizer que a maioria das listas que eu encontrei foi feita em comemoração/homenagem ao dia da mulher – como se a importância dos feitos femininos devesse ser lembrada apenas durante um dia do ano. Nenhuma lista ultrapassava 30 nomes, sendo a maioria bem curta, com menos de 10. Mas vamos em frente que a situação só piora.
Algumas listas simplesmente elencam mulheres que foram as primeiras a desempenhar uma profissão comum aos homens em sua época: seus grandes feitos foram meramente conseguir trabalhar, incluir-se no mercado enfrentando a intolerância e a desconfiança, provando sua capacidade. Um homem que apenas trabalha, seja como atleta, médico, professor, cientista ou músico, está mudando o mundo? É claro que a quebra de padrões é importante ao abrir caminhos para diversas outras mulheres, mas a grande realização elencada nas listas está normalmente reestrita a esse fato. Eu esperava algo além disso, mas parece que deixamos de engatinhar em nossas conquistas há menos tempo do que eu imaginava. Outras listas ressaltam a “audácia, ganância e atrevimento” de mulheres ao disputar e negociar posições de poder. Essas características negativas desqualificam o pioneirismo como um desvio total da normalidade, despertado apenas em algumas poucas selecionadas.
Poucas listas detalham os feitos atingidos (descobertas, inovações, mudanças, conquistas, etc.), fatos anteriores e posteriores e suas biografias, e porque foram tão importantes para a história. A maioria compara a coragem de mulheres à de grandes homens, fisicamente falando – como se esta fosse uma característica masculina, estranha ao outro gênero, uma exceção. Nenhuma das mulheres lembradas tornou o mundo de alguma forma pior, mais injusto, menos bacana, etc. Todas são figuras benevolentes e contribuintes para o bem-estar mundial. Todas as listas apresentam uma foto de rosto ou de corpo de cada mulher, normalmente clicando o momento importante que a fez entrar para a lista.
Quase todas as mulheres agiram por/em companhia de/devido a/pela pressão de um homem, fosse ele o marido, pai, irmão, parceiro, etc. Ou seja, geralmente precisaram da influência de um homem para desenvolver suas habilidades, inseri-las no seu campo de atuação e dar-lhes o devido reconhecimento.
Pensei que estava sendo injusta e que minha pesquisa usava palavras muito simples em busca de resultados muito complexos – o subjetivo pelo objetivo. Decidi inverter a situação para testar essa hipótese.
Meu queixo caiu em 0,57 segundos, o tempo que o Google levou para realizar a pesquisa. Ao buscar por “homens importantes na história” ou “important men in history”, o termo homem/men é substituído por pessoa/figura. O gênero do ser humano de atuação tão importante deixa de ser relevante em função do que ele alcançou.
Desisti. Vamos com Cleópatra, a mulher, não o mito.
quarta-feira, outubro 10, 2018
Cristal
Hoje eu vou escrever como se fossemos sair hoje à noite. O que você prefere: quer que eu passe aí ou vem me buscar? Eu vou te buscar e vou no carro da minha mãe pra você escutar o ronco do motor. Passei perfume e hidratante, estou de lingerie que combina e vou cantando a plenos pulmões. Eu quero que você me beije só no rosto, mas esse pensamento desaparece quando te vejo entrando no carro. Quer mudar de música? Quer ligar o ar? Eu sei que não porque gostamos das mesmas músicas e do mesmo vento no rosto. Não quero que você saiba aonde vamos: vou por no GPS o endereço do lado oposto da rua, pra que você me indique o caminho sem saber o destino final.
Entrego as chaves para o manobrista. Se você não beber e quiser experimentar, pode dirigir na volta. Estou de salto e vestido, você de camisa, jeans e suas botas do Chico Bento. Ok, estou brincando, elas são legais.
A espera por uma mísera mesa para dois vai se estender por anos-luz, mas não tem problema. Vamos sentar no bar e conversar sobre família, amigos, cachorros e faculdades. Nada de nós.
Que delícia ser de uma felicidade transbordante, daquelas que não tem como não olhar, ainda melhor do que o aperitivo que pedimos. Seu carinho em mim é natural e não adianta resistir. Estou de olho em você, em cada detalhe e em tudo mais. Vamos dividir a pizza e você vai pedir uma brotinho doce depois.
Pode deixar a mão no meu joelho, no meu ombro, no meu pescoço, pode pegar no meu tornozelo. Eu vou fingir que a corrida de hoje cedo me deixou doída e dizer para você apertar a minha panturrilha. Vamos pedir mais uma água sem gás e rachar a conta. Comentar de alguém em uma mesa próxima, falar qualquer bobagem sobre uma pessoa que passou no salão; vou pedir para você repetir o que disse no meu ouvido enquanto eu penso em uma resposta engraçada.
Vou pagar o valet e vamos decidir para onde vamos. Espero que você nem se dê ao trabalho de sugerir um cinema. Se tiver vaga na garagem do seu pai, estamos do lado e vamos direto; foda-se que eu não trouxe nem uma caixinha para colocar as minhas lentes de contato. Se a opção pelo Zona Azul de amanhã cedo não permitir, ainda melhor: te deixo na sua casa para você conseguir um carro emprestado e vamos num pega até a casa da minha mãe. Você vai chegar primeiro na força e não na astúcia, mas tudo bem. Pode parar na porta enquanto eu manobro na garagem, eu vou entrar para pegar alguma coisa, uma mala que já estava meio arrumada. O meu cachorro vai te receber pulando e você vai conversar com o pessoal de casa, bebendo água, enquanto eu ouço o papo do meu quarto.
Bora. Você levanta as sobrancelhas para saber se eu peguei tudo. Talvez eu já tenha abandonado o salto e vá para o seu carro de Havaianas. Talvez você não se dê ao trabalho de ligar o GPS porque quer chegar logo. Vou segurando a sua perna e me sentindo a mulher mais sortuda do mundo por contar com você do meu lado. Nessa noite específica e em todas as outras.
É um caminho rápido e conhecido para voltar à sua casa. Por que o controle do portão nunca funciona de primeira? Pega as chaves no painel? Leva a minha bolsa? Chama o elevador?
Vou entrar pisando leve para não acordar ninguém nos outros quartos; você diz que não preciso me preocupar. Se eu encasquetar que quero ver televisão, vou te fazer mudar a mesa, o monitor, o videogame e os milhões de cabos para a frente da cama. Não vou até a cozinha para pegar dois copos de água, não adianta insistir. Quero aproveitar um momento sem você no quarto para deixar tudo no jeito e me espreguiçar na sua cama.
Tranca a porta, apaga a luz. Já que isso é tudo imaginação, vou deixar ligado um abajur que nem existe.
Eu vou fingir que esqueci o que acontece depois. Você vai ter que me lembrar nos mínimos detalhes quando me encontrar de novo. Por... favor?
Entrego as chaves para o manobrista. Se você não beber e quiser experimentar, pode dirigir na volta. Estou de salto e vestido, você de camisa, jeans e suas botas do Chico Bento. Ok, estou brincando, elas são legais.
A espera por uma mísera mesa para dois vai se estender por anos-luz, mas não tem problema. Vamos sentar no bar e conversar sobre família, amigos, cachorros e faculdades. Nada de nós.
Que delícia ser de uma felicidade transbordante, daquelas que não tem como não olhar, ainda melhor do que o aperitivo que pedimos. Seu carinho em mim é natural e não adianta resistir. Estou de olho em você, em cada detalhe e em tudo mais. Vamos dividir a pizza e você vai pedir uma brotinho doce depois.
Pode deixar a mão no meu joelho, no meu ombro, no meu pescoço, pode pegar no meu tornozelo. Eu vou fingir que a corrida de hoje cedo me deixou doída e dizer para você apertar a minha panturrilha. Vamos pedir mais uma água sem gás e rachar a conta. Comentar de alguém em uma mesa próxima, falar qualquer bobagem sobre uma pessoa que passou no salão; vou pedir para você repetir o que disse no meu ouvido enquanto eu penso em uma resposta engraçada.
Vou pagar o valet e vamos decidir para onde vamos. Espero que você nem se dê ao trabalho de sugerir um cinema. Se tiver vaga na garagem do seu pai, estamos do lado e vamos direto; foda-se que eu não trouxe nem uma caixinha para colocar as minhas lentes de contato. Se a opção pelo Zona Azul de amanhã cedo não permitir, ainda melhor: te deixo na sua casa para você conseguir um carro emprestado e vamos num pega até a casa da minha mãe. Você vai chegar primeiro na força e não na astúcia, mas tudo bem. Pode parar na porta enquanto eu manobro na garagem, eu vou entrar para pegar alguma coisa, uma mala que já estava meio arrumada. O meu cachorro vai te receber pulando e você vai conversar com o pessoal de casa, bebendo água, enquanto eu ouço o papo do meu quarto.
Bora. Você levanta as sobrancelhas para saber se eu peguei tudo. Talvez eu já tenha abandonado o salto e vá para o seu carro de Havaianas. Talvez você não se dê ao trabalho de ligar o GPS porque quer chegar logo. Vou segurando a sua perna e me sentindo a mulher mais sortuda do mundo por contar com você do meu lado. Nessa noite específica e em todas as outras.
É um caminho rápido e conhecido para voltar à sua casa. Por que o controle do portão nunca funciona de primeira? Pega as chaves no painel? Leva a minha bolsa? Chama o elevador?
Vou entrar pisando leve para não acordar ninguém nos outros quartos; você diz que não preciso me preocupar. Se eu encasquetar que quero ver televisão, vou te fazer mudar a mesa, o monitor, o videogame e os milhões de cabos para a frente da cama. Não vou até a cozinha para pegar dois copos de água, não adianta insistir. Quero aproveitar um momento sem você no quarto para deixar tudo no jeito e me espreguiçar na sua cama.
Tranca a porta, apaga a luz. Já que isso é tudo imaginação, vou deixar ligado um abajur que nem existe.
Eu vou fingir que esqueci o que acontece depois. Você vai ter que me lembrar nos mínimos detalhes quando me encontrar de novo. Por... favor?
domingo, setembro 16, 2018
Eu passo
Eu estava no box deixando a água quente do chuveiro escorrer
pelas minhas costas. Mãos ora no rosto, ora apoiando na parede. Eu continuava
tão desanimado e desmotivado como em qualquer outro dia e a minha tristeza tinha
tradução física: uma dor no ombro que não ia embora por nada. Molhado da cabeça
aos pés, eu simulava um lugar aconchegante para sofrer. Sem sucesso.
Olhei para o lado e enxerguei, depois do vidro e através do
vapor, uma mulher encostada na porta. Me olhava sem expressão.
O que eu deveria pensar? Eu tinha trancado a porta do
apartamento, a do quarto, a do banheiro e se pudesse também teria passado chave
na do box. Ninguém tinha nenhuma cópia. Eu não tinha ouvido nenhum barulho de
arrombamento ou mesmo de fechadura abrindo. Morava no 20º andar, ninguém
poderia ter entrado pela janela.
- Quem é você?
Por mais estranha que essa visão parecesse, não tive como
elaborar qualquer hipótese. Ela mesma respondeu:
- Sou a Morte.
Isso não me amedrontou. Continuei como estava há anos, sem
sentir nada, nem certeza nem dúvida. Ela estava ali, era ela mesma, toda de
branco, dentro do banheiro comigo. Fiz a única pergunta possível:
- Por que eu morri?
- Você não aguentou. Se jogou pela janela sem titubear.
Parou de falar por um momento, me encarando do mesmo jeito,
sem mudar a entonação ou a postura vazias:
- O medo de altura era um repelente e um atrativo. Se lembra
daquelas olhadas, calculando forças e alvos? Não teve nada disso. Foi de uma
vez só, pela janela da sala.
Abri e fechei a boca três vezes antes de questionar. Alguma
coisa me atrapalhava o raciocínio, o cérebro não funcionava bem - parecia ter
se espalhado pelo chão em vários pedaços.
- Então como eu ainda estou aqui no banho?
- Você não está aqui realmente. Já foi. Resolvi deixar você
se lavar mais uma vez antes de vir comigo.
As torneiras de água fria e quente me encararam. Ouvi um
grito na rua. Então era verdade.
Assim como o meu corpo devia estar se esvaindo em sangue na
calçada, ou em cima de um carro, as angústias fluíam com a água quente. Um
alívio vinha preenchendo cada cavidade do meu corpo. Esmaguei para fora dos
meus pulmões um milhão de litros de ar; apertei os olhos e não chorei, e, muito
melhor, não senti aquela vontade estúpida de chorar sem ter lágrimas. Eu não
viveria mais aquela sensação de tempo perdido, dinheiro gasto, vida
desperdiçada. Como aquilo me fez bem.
De algum jeito, eu sabia que ela sabia tudo a respeito dos
meus pensamentos. Eu não precisava explicar uma vírgula, mentir ou pensar em
algo agradável para dizer. Estava nu, de pé à sua frente, tomado de
tranquilidade como um recém-nascido depois da dor do parto. Sem aflições,
pavores ou chiliques, nem euforia ou animação passageiras. Isso era melhor, muito melhor do
que eu tinha imaginado.
Pareceu que tudo tinha valido a pena até ali. Que eu tinha
nascido para aquilo, aquele desfecho trágico, se assim o considerar. Fez mais
sentido que eu achava e encaixou perfeitamente com todo o resto da minha vida. Porque
eu estava vivo até cair, um morto não se joga pela janela.
Passei a mão no vidro embaçado para poder enxergá-la melhor
e encarar fundo os seus olhos. Precisava sair do box do chuveiro, me secar,
colocar uma roupa limpa? Acompanharia a Morte fisicamente ou era só fechar os
olhos e deixar o corpo desabar sobre os azulejos? Sirenes corriam e chegavam à
cena, mas eu ainda me sentia ali de pé no banho.
Suas pupilas negras eram como dois buracos nos quais eu
tropeçara de cabeça. Aumentaram de tamanho, logo extrapolaram o branco dos
olhos e ultrapassaram os limites de seu rosto. As paredes e a louça branca do
banheiro se fundiram com sua roupa cheia de luz, embaralhando a ideia de cômodo
e pessoa como coisas separadas. As duas pupilas eram então um grande círculo,
do tamanho da porta, e continuavam a me olhar e puxar para o fundo. Tornaram-se
uma passagem, um portal, como preferir.
Passo após passo, passei para o lado de lá.
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