Essa mulher tem membros, tronco e cabeça. Rosto cheio, pouca idade, sorriso fácil. Fora as obviedades físicas citadas acima, eu não tenho material para encará-la como um ser humano completo. Não sei nada a seu respeito, jamais troquei uma única palavra com ela, é um indivíduo que eu desconheço. Tudo o que eu deduzo e duvido sobre a sua personalidade está relacionado com a minha observação cuidadosa, diária e silenciosa do seu cabelo.
Ainda que eu não tivesse destruído meus próprios fios e desde então me consumisse em uma inveja ácida das cabeleiras fartas que me cercam, o cabelo dessa mulher pede por uma vista atenta. Em meses de olhares enviesados, disfarçados por uma aura de desinteresse e coincidência ao ser notada, construí uma sincera reverência, mantida até hoje como particular.
Ela tem os fios grossos, cheios, escuros, lisos, que chegam até a cintura e com luzes nas pontas. Tirando esses centímetros de tintura ao seu final, não há nada em seu formato ou raiz nascente que motive questionamentos quanto à sua virgindade, inocente de alisamento ou outro método de coloração. O corte é reto, pouco criativo; na linha da testa, alguns fios mais finos e curtos despontam; na altura das orelhas, duas mechas servem como moldura ao rosto. O brilho sincero do cabelo reflete saúde, beleza, força e boa genética. Além da apresentação típica, solto e escorrido pelos ombros ou na mesa atrás de sua cadeira, ela também costuma prendê-lo em um nó. Para construir a arquitetura onde os fios suportam os próprios fios, ela leva cinco minutos a atar com calma, mas determinada, todas as pontas.
Mais do que contemplar o espetáculo da natureza em queratina, o qual presumo que seja acompanhado por hábitos saudáveis de limpeza e hidratação, eu me surpreendo com a regularidade do cabelo dessa mulher. Mesmo diante das intempéries do tempo ou da displicência de um dia de preguiça, os fios estão sempre brilhantes, arrumados, impecáveis. Não houve um único dia em que eu tenha pontuado mentalmente qualquer leve traço de oleosidade ou secura, ponta dupla ou frizz.
Para domar o ódio que meus folículos capilares nutrem por mim, bombardeando óleo a todo instante, optei pelo contrário dos pelos que essa mulher mantém na cabeça. Não tenho o que é preciso para manter, ao longo dos dias e meses, essa realidade longa e lisa, que alcança os outros antes de qualquer coisa e demonstra força por si só. Me resta apenas a admiração pelo movimento, o colocar atrás da orelha e o enrolar do comprimento nos dedos. À distância, eu não teço elogios e fico sem saber o perfume do seu shampoo.
sexta-feira, agosto 24, 2018
quarta-feira, julho 25, 2018
Convergência
Um dia talvez eu te perdoe por você ter passado tão perto de mim e nunca ter me encontrado.
Eu vou perdoar todos os nossos amigos em comum que não pensaram em nos apresentar antes.
Todo o destino que me pôs a metros de você e não me fez olhar pra trás, por cima do ombro.
Cada vez em que eu relei na ideia de te conhecer, mas escolhi outros caminhos.
Quero poder perdoar todos os pontos em comum entre a gente, incapazes de fazer faísca por conta própria.
As coincidências que nos afastavam e nos aproximavam, um ioiô de chiclete.
Sem reclamar por ter provavelmente andado ao seu lado, invisível e insensível, em um lugar qualquer.
Será que, nem uma única vez, eu não tenha te olhado por um mísero segundo?
Vou parar de correr atrás de um culpado para eu não ter te visto antes, bem na minha frente.
Ninguém tem mais culpa nisso tudo do que eu.
E pensar que se eu tivesse te procurado um pouco mais, um pouco antes... Ah!
Que horrível seria. Jamais tão incrível.
Eu era incapaz de sonhar assim.
Eu vou perdoar todos os nossos amigos em comum que não pensaram em nos apresentar antes.
Todo o destino que me pôs a metros de você e não me fez olhar pra trás, por cima do ombro.
Cada vez em que eu relei na ideia de te conhecer, mas escolhi outros caminhos.
Quero poder perdoar todos os pontos em comum entre a gente, incapazes de fazer faísca por conta própria.
As coincidências que nos afastavam e nos aproximavam, um ioiô de chiclete.
Sem reclamar por ter provavelmente andado ao seu lado, invisível e insensível, em um lugar qualquer.
Será que, nem uma única vez, eu não tenha te olhado por um mísero segundo?
Vou parar de correr atrás de um culpado para eu não ter te visto antes, bem na minha frente.
Ninguém tem mais culpa nisso tudo do que eu.
E pensar que se eu tivesse te procurado um pouco mais, um pouco antes... Ah!
Que horrível seria. Jamais tão incrível.
Eu era incapaz de sonhar assim.
quinta-feira, junho 07, 2018
A vingança é um prato que se come congelado
O celular não parava de apitar e ele continuava a dormir pesado. Ela alcançou a tela em meio aos lençóis e se assustou com a claridade. De sua miopia, só conseguiu ver um mesmo nome feminino repetido diversas vezes, titulando emojis, pontos de exclamação e reticências. Acompanhados de palavras de baixo calão bem sugestivas.
Decidiu desbloquear o aparelho. Ao seguir naquela conversa, com o coração explodindo, ela queria ser pega no pulo e apanhar, ouvir gritos até ficar surda e não ter respostas para legitimar o ciúme. Mas ele permaneceu em um ronco baixo e ela continuou lendo. Voltava na leitura um dia, uma semana, doze dias, sem que o assunto esfriasse.
A ardência da conversa estimulou a quentura de seu sangue. Do coração quebrado nasceram imensos chifres, a encher seus olhos de lágrimas e ódio. Mal deu tempo de pegar as roupas espalhadas no chão e tirar a calcinha do avesso para vesti-la. A malha e a blusinha que ficavam, respectivamente, em cima e embaixo da camisa, se perderam na pressa.
Sem respirar, fechou a porta do quarto e a do apartamento. Desceu à rua e atravessou um, dois, três quarteirões, tremendo nos saltos até a padaria. A certeza que a nutria nos últimos meses se mostrara insípida e o vazio se transportava do peito ao estômago. Precisava preenchê-lo por segurança, não por apetite. Uma opção honesta de comida destoaria da situação.
Pediu duas bolas de sorvete de chocolate para congelar os ânimos. Naquela hora da manhã, a casquinha gelada poderia tomar o tempo que precisasse para ser saboreada. Do sólido para o líquido a cada lambida, como todos os sabores a derreter e todos os pingos que mancharam suas roupas, este não seria o final. Aquilo não era a sobremesa.
Era só o aperitivo.
Decidiu desbloquear o aparelho. Ao seguir naquela conversa, com o coração explodindo, ela queria ser pega no pulo e apanhar, ouvir gritos até ficar surda e não ter respostas para legitimar o ciúme. Mas ele permaneceu em um ronco baixo e ela continuou lendo. Voltava na leitura um dia, uma semana, doze dias, sem que o assunto esfriasse.
A ardência da conversa estimulou a quentura de seu sangue. Do coração quebrado nasceram imensos chifres, a encher seus olhos de lágrimas e ódio. Mal deu tempo de pegar as roupas espalhadas no chão e tirar a calcinha do avesso para vesti-la. A malha e a blusinha que ficavam, respectivamente, em cima e embaixo da camisa, se perderam na pressa.
Sem respirar, fechou a porta do quarto e a do apartamento. Desceu à rua e atravessou um, dois, três quarteirões, tremendo nos saltos até a padaria. A certeza que a nutria nos últimos meses se mostrara insípida e o vazio se transportava do peito ao estômago. Precisava preenchê-lo por segurança, não por apetite. Uma opção honesta de comida destoaria da situação.
Pediu duas bolas de sorvete de chocolate para congelar os ânimos. Naquela hora da manhã, a casquinha gelada poderia tomar o tempo que precisasse para ser saboreada. Do sólido para o líquido a cada lambida, como todos os sabores a derreter e todos os pingos que mancharam suas roupas, este não seria o final. Aquilo não era a sobremesa.
Era só o aperitivo.
quinta-feira, abril 12, 2018
Quinta-feira
Esta é uma sala de silêncio e risadinhas. Ninguém consegue ir além do próprio silêncio e ninguém sabe fazer mais do que as próprias risadinhas. É tão vazio e tão odioso. São as minhas companheiras hienas, que mal aproveitam a carcaça do que os professores jogam para seu público.
Faz um frio dos diabos no fundo da sala e não há nenhum som audível além do ar condicionado. São quatro dúzias de estudantes reunidos, metade olhando para frente de forma contínua. O resto, eu incluída, olha para baixo, para os lados ou vira os olhos para dentro da órbita ocular, ignorando o que se passa alguns metros à frente.
O professor pede um voluntário para algum exercício rápido. Para variar, ninguém concorda em ser exposto. Ele repete as instruções, eu continuo sem entender, mas peço para ter meu texto analisado.
Ninguém aqui me conhece. Ninguém sabe de onde eu venho. Gostaria muito de uma vez estar no centro da roda para ser julgada, apedrejada, aplaudida, cuspida. Estou há muito tempo em salas de aula e qualquer vergonha que eu tenha de aparecer nesse ambiente controlado e asséptico, tento sempre reduzir a zero.
Ele com certeza pensou bastante em como reproduzir um acontecimento, a partir do qual eu deveria escrever uma única lauda. Tem o seu script de abrir e fechar a porta para realizar algo impactante; e é interrompido.
Entra na sala o espécime masculino mais maravilhoso do mundo. Ele tem os cabelos loiros, as mãos suaves, o queixo forte. Além do atraso notável, demonstra segurança e carrega consigo os cabelos mais lindos que eu já vi na minha vida. Eu não consigo desviar o olhar enquanto ele se esgueira pelas cadeiras – uma fileira de garotas pouco solícitas evita lhe dar licença – e chega a seu destino final, um assento nos fundos. Como eu ia prestar atenção a qualquer coisa que se passava em qualquer outro lugar do mundo?
O professor avisa que pronto, era isso que ele queria fazer. Era isso que ele queria demonstrar – só isso, uma coisa qualquer que eu deixei passar, mas estou com o coração acelerado e irremediavelmente de ponta cabeça. E tenho vinte minutos para escrever sobre isso.
Faz um frio dos diabos no fundo da sala e não há nenhum som audível além do ar condicionado. São quatro dúzias de estudantes reunidos, metade olhando para frente de forma contínua. O resto, eu incluída, olha para baixo, para os lados ou vira os olhos para dentro da órbita ocular, ignorando o que se passa alguns metros à frente.
O professor pede um voluntário para algum exercício rápido. Para variar, ninguém concorda em ser exposto. Ele repete as instruções, eu continuo sem entender, mas peço para ter meu texto analisado.
Ninguém aqui me conhece. Ninguém sabe de onde eu venho. Gostaria muito de uma vez estar no centro da roda para ser julgada, apedrejada, aplaudida, cuspida. Estou há muito tempo em salas de aula e qualquer vergonha que eu tenha de aparecer nesse ambiente controlado e asséptico, tento sempre reduzir a zero.
Ele com certeza pensou bastante em como reproduzir um acontecimento, a partir do qual eu deveria escrever uma única lauda. Tem o seu script de abrir e fechar a porta para realizar algo impactante; e é interrompido.
Entra na sala o espécime masculino mais maravilhoso do mundo. Ele tem os cabelos loiros, as mãos suaves, o queixo forte. Além do atraso notável, demonstra segurança e carrega consigo os cabelos mais lindos que eu já vi na minha vida. Eu não consigo desviar o olhar enquanto ele se esgueira pelas cadeiras – uma fileira de garotas pouco solícitas evita lhe dar licença – e chega a seu destino final, um assento nos fundos. Como eu ia prestar atenção a qualquer coisa que se passava em qualquer outro lugar do mundo?
O professor avisa que pronto, era isso que ele queria fazer. Era isso que ele queria demonstrar – só isso, uma coisa qualquer que eu deixei passar, mas estou com o coração acelerado e irremediavelmente de ponta cabeça. E tenho vinte minutos para escrever sobre isso.
sábado, agosto 12, 2017
Um de cada
Hoje são dez anos com um blog. Entre várias mudanças de endereço físico e viagens, tenho há uma década um lugar na internet no qual ninguém além de mim toca.
Por três ou quatro anos eu escrevi furiosamente e sozinha dei conta de coisas obscuras. Imaginação a mil, liberdade e criatividade. Transpirava como um porco para ter inspiração: lia muitooo mesmo. Enchi minhas prateleiras, passei horas em livrarias, rasguei muitos pacotes do correio, aluguei metros de livros. Me dediquei e comprometi de forma extrema como uma pessoa apaixonada pela escrita e pela leitura.
Quem eu era e em quem eu me transformei? Pelo que eu me deixei levar para ter mudado tanto? Que transformação é essa na minha cabeça para eu ter me distanciado desse amor? Procuro um culpado porque recuso a acreditar que eu tenha a capacidade de me fazer tamanho mal. Às vezes eu consigo escrever e gostar, mas não é a mesma coisa nem de longe. É um robô sem concentração, contando caracteres e segundos, levado pela maré sem saber nadar, em cima de uma bóia furada.
Não reconheço nem admito que ocupo o mesmo corpo de dez anos atrás. Vejo como se todas as minhas células tivessem morrido e sido substituídas aos poucos, até não sobrar nada anterior. E nos ossos fraturados, ficaram as marcas identificáveis? E as cicatrizes nos ligamentos, elas permanecem uma dor quando o tempo esfria? E as glândulas piradas, elas aprenderam a se comportar em momentos de nervosismo? E a larga tatuagem no braço esquerdo, ela não sai nem com água fervendo? Vou fingir que o cabelo engrossou e as unhas cresceram em definitivo, não tem mais nada de infantil nesse corpo. Sou outra, que em nenhum grau parece com o que eu imaginei que seria.
Sinceramente, eu não imaginei nada. E se pensei, não me lembro. Então não faz diferença quem eu sou, devo ser ou posso ser. Não tenho trilhos para seguir nem modelo a copiar. Sou a soma dos meus defeitos e qualidades, as experiências, coragens e medos, as alergias e os sorrisos, o vômito de nervoso que eu segurei aquela vez, o problema no fundo da garrafa e o sorriso ao volante. Sem entender cada um desses pequenos pedaços e aprender a dançar no ritmo que eles produzem dentro de mim, eu não sou nada.
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