Eu estava tentando chegar em casa tomando o metrô, e por
duas vezes estava na metade do caminho quando lembrei que tinha esquecido algo
e tive que voltar. Agora estava com uma mochila cheia nas costas, uma mala
vazia na mão direita, uma bolsa no ombro e várias sacolas na outra mão.
Parada em frente à catraca, procurei em minha bolsa por um
tíquete. Tinha cartelas e cartelas de passagens comigo, mas não achava nenhuma.
Quando finalmente encontrei, levantei os olhos e vi dois policiais me encarando
do outro lado. Desviei o olhar, apreensiva, e enfiei o bilhete na catraca.
Tentei forçar minha entrada, mas com tantas bagagens, era
uma tarefa impossível. A catraca em si diminuía de largura, até sobrar o espaço
de uma mão para que eu passasse. Ouvi uma voz grossa: ”por favor, nos acompanhe”.
Os policiais me indicaram a entrada auxiliar do metrô, e
disseram que o caminho seria seguro. Era uma rua larga em subida, com o chão
cor de areia, casinhas brancas empilhadas dos dois lados. Eu andava no exato
meio da via. Velhos com os ouvidos, os olhos e as unhas sangrando batiam a
cabeça contra os muros e gritavam. Uma velha tentou me agarrar, e eu a empurrei
com força.
Cheguei a uma escada que levava a um quintal subterrâneo.
deixei ali minhas bagagens, que não me seriam mais úteis. Desci, segurando no
corrimão frio e úmido, e encontrei minha nova prisão.
O chão era vermelho e as paredes eram brancas. Em uma delas,
havia portas em toda a sua extensão. Estava tudo muito sujo, com folhas caídas,
e não havia uma iluminação decente.
Meus novos companheiros: um garoto gordinho de roupas pretas
e óculos redondos; uma lagosta branca com uma ridícula peruca loira de tranças
extremamente artificial e olhos azuis grudados em seu peitoral; um peixe verde
mirradinho, de óculos escuros e voz fina; minha amiga Pamella, absolutamente
mal-tratada; e uma ratazana enorme com o pelo falhado.
A ratazana era a interna mais antiga. Ela me apresentou
todos os métodos de tortura que poderiam ser feitos caso eu não me comportasse.
Enfiar em mim um ferro ardente no formato de um pinguim, deixar uma chinchila
comer meu intestino por três horas, privações variadas e ser mantida por tempo
indeterminado no escuro eram apenas alguns exemplos. Minha amiga sorria de leve
a cada menção. Com certeza havia passado por todas as torturas em suas
tentativas de fuga. Como havia conseguido sobreviver?
Eu estava arrepiada. Sou extremamente medrosa, e meu maior
pânico é sentir dor. A cada descrição, eu gritava por dentro. Tentei me manter
impassível, mas sei que minha voz me denunciou, e ao final das descrições
soltei um débil: “vou me comportar direitinho”.
Algum tempo passou, todos ficamos em silêncio. Um de nós
disse que estava com fome (ainda que todos estivessem famélicos, especialmente
eu). Um enorme barulho como o ronco de um estômago, vindo de uma porta de vidro,
a primeira da parede das portas, me assustou. Eu fiquei paralisada, sem coragem
nem de olhar para trás, mas todos se levantaram rápido e me chamaram para ver
quem estava trazendo a nossa comida.
Saindo do ralo, uma enorme cabeça de camelo seguida por um
corpo peludo de cobra. O animal debatia-se contra as paredes daquele pequeno
quarto enquanto todos assistiam com água na boca. Ele puxou com a cauda quatro
bacias quadradas vindas pelo encanamento. Nelas havia arroz, feijão, frango
frito bem branquinho e milho. Aquele milho provavelmente era alimento dos
frangos antes de mortos. Eu não conseguia sentir nada além do meu medo.
A lagosta abriu a porta e todos entramos para nos servir. O camelo-cobra
deslizava seus últimos metros de volta ao ralo. A ratazana pegou de um armário
três pratos, minha amiga Pamella pegou o seu e eu peguei o restante.
Me servi de frango e milho, tremendo de medo por não pegar
arroz e feijão, por talvez pegar comida demais e por minha fome já ter passado.
A ratazana serviu pratos cheios, quase transbordando, e minha amiga Pamella
pegou um pouquinho de cada.
Ao sentarmos para comer, uma sirene tocou. Estávamos em
cinco, e o peixe de óculos não estava entre nós.
Todos largaram os pratos, com os rostos fechados, e subiram
as escadas. Eu os segui, aflita, com pavor do nosso destino e sem entender como
o peixe de óculos poderia ter desaparecido se estava conosco menos de quinze
minutos antes. A culpa seria de todos nós ou só minha?
Uma multidão de policiais nos cercou. Nos vasculharam,
empurraram e machucaram. Não tocaram no menino gordinho, que suava verde.
O policial mais velho tirou os óculos do menino e colocou
nele um outro par de óculos redondos, amassados e sujos. O menino piscou e
recuou, estranho àquelas lentes. Num estalar de dedos do policial, o menino
desapareceu e um ser caiu entre as roupas pretas que restaram.
Um segundo policial puxou a camisa caída e encontrou
enrolado na calça... um peixe mirradinho.
domingo, janeiro 04, 2015
segunda-feira, maio 19, 2014
Jesse
Reli o primeiro volume de "A Mediadora" essa noite em mais ou menos uma hora e me dei conta de como ainda sou apaixonada pelo Jesse. Sou e sempre serei.
Deu saudade dos meus antigos hábitos de leitura: horas seguidas lendo sozinha, um livro por semana, um livro atrás do outro, muitos assuntos diferentes, nada que desviasse minha concentração (nunca gostei de assistir TV).
A tecnologia portátil de hoje em dia é sedutora e dilui nossa atenção. Celulares e tablets, internet sempre disponível, são armadilhas fatais para quem quer entregar a alma aos livros.
Não há substituto à altura: só uma dedicação imensa, ininterrupta, interminável é capaz de dar origem a uma paixão tão arrebatadora e suspirante como a que eu sinto e sempre sentirei pelo Jesse.
Deu saudade dos meus antigos hábitos de leitura: horas seguidas lendo sozinha, um livro por semana, um livro atrás do outro, muitos assuntos diferentes, nada que desviasse minha concentração (nunca gostei de assistir TV).
A tecnologia portátil de hoje em dia é sedutora e dilui nossa atenção. Celulares e tablets, internet sempre disponível, são armadilhas fatais para quem quer entregar a alma aos livros.
Não há substituto à altura: só uma dedicação imensa, ininterrupta, interminável é capaz de dar origem a uma paixão tão arrebatadora e suspirante como a que eu sinto e sempre sentirei pelo Jesse.
quinta-feira, janeiro 31, 2013
Impaciência
Estou quase no máximo da ansiedade tolerável. Eu, que sempre fui tão tranquila, tolerante, calma.
Me forço a não pensar nisso, a travar em outras ideias, a fingir que esse assunto não existe. Certeza que se eu resolvesse abordá-lo com sinceridade, choraria muito, muito. Ainda preciso esperar algumas horas... Respirar fundo,,,
Me forço a não pensar nisso, a travar em outras ideias, a fingir que esse assunto não existe. Certeza que se eu resolvesse abordá-lo com sinceridade, choraria muito, muito. Ainda preciso esperar algumas horas... Respirar fundo,,,
quinta-feira, outubro 11, 2012
Brisa roxa
Hoje eu toparia sair e dar problema. Foi alguma coisa no táxi que eu tomei que me deixou assim.
Foi também a cor do céu, roxo, e o calor do anoitecer de outubro. O carro de janelas abertas, passando rápido.
Queria chegar em casa só pra tomar banho e me trocar, então voltar rápido pra rua. Já de salto, perfumada, cabelo um pouco úmido, bolsa pequena, só o básico pra ir e voltar. E dar problema.
quarta-feira, junho 20, 2012
Torção de massa cinzenta
Sinto muitíssima falta de escrever, de tirar um dia todo, ou pelo menos algumas horas, para rever tudo o que está em minha cabeça e exteriorizar o que mais me importa, do meu jeito.
Escrever é como pegar uma esponja encharcada, pesada, e apertá-la até não sobrar mais nenhuma gota.
Meu crânio poroso, meu precioso crânio poroso, que tanto absorve. Está na hora de deixar essa água suja ir embora.
-
Sou um indivíduo repulsivo. Intragável, evitado, e quando infelizmente visitado, de preferência sob efeito de tranquilizantes, portanto emudecido. Enfim, solitário com S de solidão.
Estou vivendo uma mudança que necessita de mais caixas, caminhões e containers do que existem na Terra para ser aceita de fato. Pesa muito, são oceanos de lágrimas engolidas resultando em fortes dores de garganta diárias. Fuga de desabafos, eu finjo que é por medo de julgamentos, mas sei muito bem: tenho pavor de por acaso não ser ouvida justamente agora.
Escrever é como pegar uma esponja encharcada, pesada, e apertá-la até não sobrar mais nenhuma gota.
Meu crânio poroso, meu precioso crânio poroso, que tanto absorve. Está na hora de deixar essa água suja ir embora.
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Sou um indivíduo repulsivo. Intragável, evitado, e quando infelizmente visitado, de preferência sob efeito de tranquilizantes, portanto emudecido. Enfim, solitário com S de solidão.
Estou vivendo uma mudança que necessita de mais caixas, caminhões e containers do que existem na Terra para ser aceita de fato. Pesa muito, são oceanos de lágrimas engolidas resultando em fortes dores de garganta diárias. Fuga de desabafos, eu finjo que é por medo de julgamentos, mas sei muito bem: tenho pavor de por acaso não ser ouvida justamente agora.
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